O barro impuro – Marcus Rosa
Seus relatos se confundem com os meus. As marcas do barro familiar se escondem lá no fundo das nossas consciências. Não adianta fugir. Melhor é convidar este barro cheio de impurezas para um chá. Puxamos nossa cadeira, sentamos, olhamos para o fundo de seus olhos e perguntamos: “O que você quer de mim, barro impuro?”.
O barro impuro, cheio de contaminações, responde com um rosnado: “Eu quero que você pare de fingir que eu não existo; que pare de fugir de mim sempre que eu apareço; que sinta que eu sou você e você sou eu. Sua aflição não vai parar enquanto você não me aceitar por completo”.
Paramos e olhamos para o barro impuro. Ele nos mostra dor, muita dor, aquela dor difícil de aceitar. Deixamos a dor crescer pelos anos de querer distância, de berrar silenciosamente: “Chega! Eu não quero! Eu não aguento!”.
Agora, pela aproximação silenciosa e contemplativa, a dor vai diminuindo, diminuindo, diminuindo pela ausência de aversão. Chorando, olhamos para o barro impuro, e falamos: “Me perdoe por ter fugido de ti por tanto tempo. É que eu achava que não tinha forças para estar contigo, para sentar contigo, para olhar nos seus olhos. Eu estou aqui. Eu sinto você. Eu te amo. Obrigado por se mostrar, por sair, por ser o que você é”.
A cada lágrima caída, uma impureza escorria para fora do barro. O barro foi se limpando e se transformando em argila. Em nossas mãos, a argila pura, branca e imaculada é moldável, e podemos transformá-la em qualquer coisa.
Agora, nosso destino está literalmente em nossas mãos. Fazemos da argila o que quisermos.




