E a sensação de que o tempo não passa e as coisas não mudam | por Marcus Rosa
Uma das causas da aparente sensação de imobilidade temporal vem da ideia de que a vida é uma rotina que se repete. Poucas vezes prestamos atenção ao que estamos fazendo e, pouquíssimas vezes, questionamos nossas rotinas. Quando a rotina se afunda em atos repetitivos, pode ser que venhamos a nós desconectar de nós mesmos.
Presos na rotina que nós mesmos criamos, a desconexão de nós mesmos parece ser a única saída visível. Para aguentar a rotina, aprendemos a “matar” o tempo com distrações até a hora do lazer, que acaba sendo outra forma de distração. De tão distraídos, nem percebemos o tempo passar, a vida mudar.
Há um paradoxo nisso tudo. O treinamento de concentração visa reunir toda nossa atenção em um só ponto. É o oposto da distração, que dispersa a atenção para vários pontos e não assimila nenhum deles com profundidade. E, para desenvolver a concentração, precisamos é saber parar, permanecer imóveis, quietos, sem nos distrair por nada. Com o aprimoramento da concentração, observamos que tudo está em movimento e que o tédio é ilusão.
Olha só que interessante. Quanto mais a nossa mente está sossegada, parada, quieta e concentrada, mais notamos a vida como movimento. Quanto mais nossa mente está agitada, inquieta e ansiosa, mais a vida parece xoxa, parada, imóvel, sem graça.
Outra coisa paradoxal é que ao mesmo tempo que reclamamos que nada muda, também reclamamos quando da surpresa que levamos quando coisas que antes pareciam certas e previsíveis mudam. Nos acostumamos com uma rotina e reclamamos de tudo ser sempre igual. Depois, quando as coisas mudam, reclamamos de ter que mudar nossa rotina. O fato é que não sabemos o que queremos.
Outro ponto interessante é descobrir que nossa mente costuma associar mudança à mudança para melhor. Mudança ruim não é mudança, é contratempo ou azar. Por não acreditarmos na nossa capacidade de autotransformação, acabamos vivendo uma vida de ficar esperando uma mudança vinda de fora, seja pela sorte lotérica, pelo salvador da pátria ou por uma política econômica favorável. E, assim, vamos vivendo de espera atrás de espera.
O Dharma diz que qualquer mudança positiva ou negativa nasce das nossas próprias ações. A sensação de imobilidade externa é, assim, um reflexo da nossa própria imobilidade interior. Arraigados em conceitos rígidos, pouco é o espaço para mudança. A mudança nasce da flexibilização dos conceitos que fazemos da vida, da realidade e de nós mesmos. É pela flexibilização interna que conseguiremos a flexibilização das rotinas e a alteração da qualidade das mudanças que queremos experimentar. Quando entendemos nossa capacidade de transformação, guiamos nossa própria mudança, fazendo pequenas alterações diárias. A cada momento, escolhemos que tipo de transformação nós queremos operar em na vida.




