Transformação Pessoal e Interconexão Por Marcus Rosa

Tente pensar que qualquer mudança que a pessoa faz nela mesma se reflete no ambiente ao redor dela. Para ficar mais fácil o entendimento, vamos usar exemplos de transformações pessoais negativas e positivas.

Do lado negativo, tente imaginar o decaimento da qualidade de vida de uma família quando um de seus integrantes começa a fazer uso reiterado de drogas e álcool. Esse familiar fica agressivo e passa a constranger, intimidar ou mesmo agredir seus familiares. A mudança negativa de uma pessoa alterou a dinâmica das pessoas ao redor.

O que vale para o negativo vale para o positivo. Quando uma pessoa começa a praticar meditação e vai ganhando maestria na tranquilização da mente, na geração de pensamentos saudáveis, na melhoria do seu modo de falar e escutar as pessoas e a natureza, veremos que essa mudança interna se refletirá na mudança do ambiente exterior. Não raro as pessoas se sentem mais tranquilas ao lado de uma pessoa tranquila.

E qual o objetivo de falar sobre Transformação Pessoal e Interconexão?

Vemos que muitas pessoas passam muito tempo tentando mudar o comportamento das pessoas ao seu redor ou mudar o próprio mundo, mas pouco se esforçam para criar uma mudança pessoal e profunda.

Quer mudar o mundo? Então comece por si mesma.

Quando entramos na senda do caminho da transformação pessoal, descobrimos logo de cara o quanto é difícil a pessoa mudar a si mesma. Não é fácil sair e abandonar um padrão existencial prejudicial e criar e se estabelecer em um padrão existencial saudável. Mesmo quando estamos totalmente convencidos da necessidade da mudança pessoal, vemos o quando é trabalhosa a autotransformação. Não é fácil enxergar os próprios defeitos, quanto mais mudá-los.

Se é difícil a transformação pessoal de uma pessoa consciente e que busca isso com afinco, tentar mudar uma pessoa que não quer, arrematada no sofrimento, é quase ilusório. Como tentar mudar uma pessoa que sequer sabe que precisa de mudança? Como mudar uma pessoa que não quer? Que esconde de si mesma seus defeitos? Que vive a mascarar sua realidade para não ter que encarar a si mesma?

Nossa boa vontade de ajudar as pessoas que nada se importam com autoconhecimento e autoaperfeiçoamento pode ser interpretada como rejeição. A pessoa está vivendo do jeito que ela sempre viveu. E lá vamos nós tentar mudá-la. A mensagem subliminar que podemos estar passando, mesmo se querer, é: “eu não aceito você como você é”.

Quem tenta muito mudar o mundo e os outros normalmente não consegue mudar a si mesma.

As pessoas querem mudar seus semelhantes sem melhorarem a qualidade da sua estrutura de pensamentos e sentimentos. Parte desse problema é a falsa crença de considerar egoísmo o tempo e esforço dedicado à melhoria pessoal, quando é justamente o contrário.

Imagine uma pessoa totalmente desprovida de habilidades de medicina e enfermagem que insiste em querer ajudar no Médico Sem Fronteiras (MSF). Ela não desenvolveu nenhuma habilidade que eles precisam, mas ainda assim quer ajudar. A organização do MSF recebe de boa vontade o pedido de inclusão dessa pessoa, mas não sabe como alocá-la por falta de habilidades. Boa-vontade não basta.

Nesse exemplo hipotético, melhor seria que a pessoa se dedicasse com afinco aos estudos para melhor aprender a servir seus semelhantes. Os longos anos de isolamento para estudo e aperfeiçoamento das habilidades de percepção de diagnósticos, tratamentos medicamentosos e intervenções cirúrgicas serão úteis para todas as pessoas em qualquer lugar. Ao se esforçar para melhorar a si mesma, essa pessoa que se transformou em um excelente profissional da saúde pode, agora, ajudar qualquer um em qualquer lugar com seu conjunto de habilidades conquistadas nos anos aparente egoísmo dedicado ao aprimoramento pessoal.

Agora tente transferir o exemplo desse profissional da medicina para uma pessoa que passa longos anos da sua vida dedicados à prática de meditação. Vamos imaginar que, no início, esse neófito em meditação fosse uma pessoa irritadiça, triste, sem energia, desmotivada, deprimida e ansiosa. Ela começa a praticar meditação todos os dias ao longo de vários anos. Todos os dias, sem exceção. Ela medita uma hora assim que acorda e mais uma hora antes de dormir. Com o tempo, ela ganha maestria em acalmar o corpo e silenciar a mente.

Com o domínio dessa habilidade, ela vai conseguindo abandonar as muletas que a mantinham vivendo por viver – as muletas da distração, do entorpecimento dos sentidos, dos excessos, das compulsões. Agora, repousando em si mesma, ela sente sua mente concentrada, forte, alegre, energética e feliz. Os estímulos que antes incomodavam agora não passam de impressões sensoriais surgindo e desaparecendo sem cessar.

Mais leve e mais solta, ela vai sentindo as ideias e crenças que mantinham a ilusão de separação de todos os seres vivos irem se afrouxando, afrouxando, até se dissolverem. Mais próxima da vida em si, ela passa a entender porque ela sofria tanto. Agora, depois de tanto se observar, ela entende porque as pessoas sofrem.

Ela descobriu o óbvio: que todas as pessoas são apenas seres humanos tentando lidar com o sofrimento. Alguns lidam de modo inábil, e acabam aumentando sua carga de sofrimento. Outros lidam de modo hábil, e conseguem diminuir o peso do sofrimento ao descobrir que são opcionais, pois grande parte do sofrimento que sentimos não deriva das situações que passamos, mas das nossas reações automáticas aos acontecimentos.

Essa pessoa que dedicou anos e anos de sua vida para entender o próprio sofrimento e a saber como sair desse sofrimento está, agora, mais habilitada a ajudar as pessoas que sofrem a saírem do sofrimento em que se encontram e darem o passo seguinte: entrar e permanecer em um estado de paz, de felicidade e de não sofrimento.

Para melhor avaliar a validade dessas afirmações, podemos tentar imaginar uma situação onde várias pessoas desesperadas estão à deriva em um navio no meio do grande oceano pacíficio. Que tipo de pessoa seria mais habilitada para ajudar esses errantes a atravessarem a difícil situação de insegurança e incerteza que se encontram? Mais uma pessoa ansiosa, preocupada e desesperada ajudaria? Ou será que uma pessoa que consegue perceber a situação como ela realmente é, mas sem se deixar afetar pelos que as outras pessoas sentem, falam ou fazem, poderia ser mais útil?

Uma pessoa treinada na observação profunda da realidade e que aprendeu viver em estado de serenidade é capaz de operar verdadeiros milagres com onde quer que vá. Sua presença pode ser a chave para dissolver ansiedades e tristezas. O brilho alegre de sua aura dissipa as névoas da confusão mental e dos sentimentos conflituosos.

Somos a mudança que queremos para o mundo.

Dedique-se à transformação pessoal com todo seu querer e você contemplará transformações diárias ocorrendo em todo mundo diante de seus olhos.

Entenda que uma vez por todas que você é o mundo e o mundo é você!

Não há separação.

Mude o observador e tudo mudará.

Você é o segredo da mudança.

Você é a chave da mudança.

Marcus Rosa
Professor do Curso de Meditação Para Iniciantes