FOCO, CONCENTRAÇÃO E BONDADE-AMOROSA – Texto de Marcus Rosa

Distinção entre foco e concentração

A princípio, poderíamos definir foco e concentração como sinônimos. No entanto, para fins didáticos, resolvemos separar esses dois conceitos para entender o papel de cada um na prática meditativa.

Foco

Foco seria a resolução em se manter firme às suas prioridades ou princípios. É bem provável que a pessoa que não tem prioridades ou não tenha dado um sentido à sua vida possa estar se sentindo perdida neste momento. Pessoas sem foco tendem a desperdiçar sua reserva energética em futilidades, distrações e entretenimento. Sem objetivos claros para nortear suas ações e intenções, a força mental pode acabar sendo consumida pela ânsia pela satisfação do desejo por prazeres sensoriais ou pelo entorpecimento dos sentidos.

Perdida e sem foco, é como se a pessoa tentasse atirar para todas as direções, mas sem nada alcançar. Vive a vida como uma caixa de surpresas; surpresas que são, normalmente, desagradáveis.

A falta de definição de um Norte na vida, ou de um foco, pode deixar a mente fraca e influenciável. A pessoa pode passar a seguir tendências culturais, modismos e conselhos de pessoas imprudentes sem se questionar. Sem os princípios basilados em objetivos saudáveis, ela não tem parâmetro para avaliar a qualidade de suas escolhas nem das influências recebidas.

Foco na meditação

O objetivo final da meditação é o fim do sofrimento. Como o fim do sofrimento é uma meta bastante elevada, podemos criar focos intermediários, voltados para a conquista de habilidades que ajudam a diminuir o sofrimento enquanto ainda não alcançamos o fim do sofrimento.

Focos intermediários

Dentro do universo da meditação, há uma ampla variedade de pequenos focos intermediários. Só porque estamos dizendo que um foco é intermediário não quer dizer que ele seja fácil de alcançar. Podemos ver esses focos intermediários como habilidades saudáveis a serem estabelecidas na mente, como objetivos relacionados com a meta final, que é o fim do sofrimento.

À medida que vamos implementando esses focos intermediários em nossa vida, pela prática da concentração, vamos experimentando uma diminuição gradual do sofrimento. E quando sentimos nossa carga habitual de sofrimento ir se desvanecendo aos poucos, podemos ir constatando uma melhoria palpável da nossa qualidade de vida. Essa melhoria serve de combustível para irmos ganhando mais confiança na possibilidade concreta de realização do foco último da meditação: o fim do sofrimento.

Concentração

Nesse contexto, concentração seria a reunião das capacidades mentais em um só ponto, objetivo ou foco. Concentramos todas nossas capacidades para realização do foco intermediário. Trabalhamos todos os dias para desenvolver e aperfeiçoar essas capacidades ou habilidades da mente-coração.

Concentração e distração

O legal da concentração é que nós podemos treiná-la. E como podemos treinar nossa capacidade de concentração? A prática da meditação Vipassana pode ser uma boa ferramenta. Podemos começar com a tentativa de manter a mente focada em algo neutro, como a respiração. No início, veremos o quanto é difícil manter a mente estabelecida na respiração. As distrações surgem e carregam a mente para longe e, quando nos damos conta, o sino toca encerrando a sessão de meditação.

A questão aqui não é evitar a distração a qualquer custo – um custo que pode acabar causando mais tensão na mente e contraturas na musculatura. Uma prática de meditação saudável passa pela disposição de reconhecer quando a mente está distraída e, com gentileza e autocompaixão, de voltar nossa atenção para o momento presente, repousando-a na respiração ou em qualquer outro objetivo de meditação que tenhamos escolhido para nossa prática.

O sucesso da prática depende do reconhecimento das distrações e do treinamento infindável da vontade de redirecionar a atenção ao momento presente quantas vezes for preciso. Se a mente se distrair mil vezes, voltamos mil vezes.

O segredo desse “voltar” é saber abandonar as distrações. Não voltamos pela força; voltamos pelo desapego a tudo que não é nosso objetivo. A prática do desapego deve ser algo leve para permitir o relaxamento e tranquilização da mente. Reconhecemos o que “não é respiração” como sendo um distração que deve ser abandonada. Depois de reconhecer e soltar, redirecionamos a mente com carinho e alegria para o foco que escolhemos, com consciência e segurança, manter nossa Atenção Plena.

Carinho e Alegria

O carinho é importante nesse treinamento do redirecionamento da mente. Não brigamos com as distrações nem com o hábito de se agarrar às distrações. O carinho apenas reconhece sem críticas, lutas e julgamentos. É como se você dissesse para você mesmo(a): “Olha só, surgiu uma distração. Tudo bem, basta soltar e voltar para a respiração.” Está vendo como é simples?

Junto com o carinho podemos adicionar um misto de alegria e satisfação. Toda vez que reconhecermos as distrações podemos transformar esse momento de reconhecimento em um momento de alegria. Alegria por quê? Porque estamos livres das distrações. Soltar as distrações deixa a mente livre para a mente focar no que é benéfico. A alegria nasce da sensação de saber que não estamos mais perdidos. Ao soltar as distrações, sabemos onde estamos e o que queremos desenvolver no aqui e agora.

Bondade-amorosa como foco

A bondade-amorosa é um valioso foco intermediário e jamais podemos subestimar sua importância na diminuição do sofrimento. Para avaliar brevemente sua importância, basta se perguntar: “Com que tipo de pessoa você gostaria de conviver? Com pessoas voltadas para a prática de maldade? Ou com pessoas estabelecidas na prática de bondade?” Quem convive com pessoas radicadas na maldade está sujeita a ser alvo das ações maldosas. E isso é sofrimento. Quem convive com pessoas focadas na bondade e amorosidade tende a sentir a energia calorosa e agradável que elas emanam através de suas ações. E isso ajuda a diminuir o sofrimento.

Bondade-amorosa e concentração

Lá atrás definimos concentração como a capacidade de reconhecer e abandonar as distrações. Quando temos foco, sabemos o que queremos, e todo o resto passa a ser uma distração. Na respiração, reconhecemos como distração tudo o que não for respiração e, em seguida, abandonamos, voltando nossa atenção e energia para a respiração.

Com a Bondade-amorosa é a mesma coisa. Primeiro aprendemos o que é Bondade-amorosa. Podemos definir Bondade-amorosa como uma intenção clara e sincera de desejar que todos os seres sejam felizes e livres do sofrimento. E podemos definir a meditação da Bondade-amorosa como o treinamento para alcançar esse objetivo.

Na meditação da Bondade-amorosa podemos treinar essa nossa intenção de bem-querer para nós mesmos(as), para nossos entes queridos, para as pessoas consideradas neutras, para todos os seres e, nesse conjunto de todos os seres, podemos incluir pessoas que consideramos difíceis. Treinamos essa intenção pela repetição de frases e pela criação de imagens mentais que atuarão como sementes de sentimentos afeitos à bondade, à amorosidade, à amizade, à felicidade, à alegria, à paz, à tranquilidade, à calma e à quietude.

Para criar algo benéfico, precisamos ter a intenção de criar esse algo. Algo benéfico não se cria sozinho. Antes de cada ação, deve existir uma intenção. E para criarmos algo tão imenso e poderoso quanto o sentimento de Bondade-amorosa é preciso haver uma intenção forte e duradoura.

A intenção da Bondade-amorosa precisa ser forte para superar o poder das distrações e influências externas. O mundo não quer que você seja uma pessoa bondosa, amável, contente e satisfeita. Essas coisas não dão lucro. O que dá lucro são as distrações. Quanto mais perdido alguém está, mais fácil de a pessoa ser manipulada pela publicidade e propaganda. É por isso que a intenção da Bondade-amorosa deve ser forte o suficiente para não se deixar seduzir pelas distrações que podem desviá-lo(a) do seu foco.

Além disso, a Bondade-amorosa precisa ser duradoura. Conquistar uma mente estabelecida em qualidades saudáveis, hábeis, conectadas com a diminuição do sofrimento, não é simples nem fácil. Requer esforço a longo prazo. Nosso querer deve ultrapassar as barreiras do tempo e ser exercitada até a penetração profunda de suas raízes em nossos corações.

Nosso compromisso com o desenvolvimento com a Bondade-amorosa deve ser diário. Todos os dias, sem exceção, devemos renovar nosso compromisso de fortalecer e manter intenções bondosas e amorosas no coração.

Foque-se, concentre-se, seja resoluto nessa Atenção Plena. Fique esperto(a). Identifique tudo que não esteja relacionado com Bondade-amorosa e abandone, solte, largue. Faça isso com tudo, tudo, tudo o que não for Bondade-amorosa ou tenha afinidade com ela.

Comece com seus pensamentos. Ao captar qualquer fagulha de pensamentos opostos à Bondade-amorosa, não deixe que isso cresça na mente. Seja capaz de fazer o esforço de abandonar as narrativas que sustentam pensamentos que não ajudam a diminuir sua carga de sofrimento.

Solte o mais rápido que puder. Solte e volte para a Bondade-amorosa quantas vezes for preciso.

Agindo dessa maneira, com a mente estabelecida na prática do bem, no que é benéfico, no que é saudável, no que ajuda a diminuir o sofrimento, você viverá melhor no aqui e agora.

Você passará a ser uma pessoa calma e tranquila, uma pessoa querida por todos.
Você dormirá em paz, acordará em paz e não experimentará pesadelos.
Você se sentirá seguro(a) e protegido(a).
Sua mente se concentrará com facilidade.
Sua complexão física será serena.
Você não morrerá confuso(a).

Depois disso tudo, eu lhe pergunto:

Vale ou não a pena manter a mente estabelecida na Bondade-amorosa?

Marcus Rosa
Professor do Curso de Meditação Para Iniciantes