INFOXICAÇÃO E MEDO DE NÃO SABER – TERCEIRA PARTE – POR MARCUS ROSA

A clava e o florete
A passagem do estado de ignorância para o de sabedoria se assemelha à transição evolutiva dos toscos batedores de clavas para a refinada arte dos esgrimistas da idade moderna. O grosseiro batedor de clavas gasta muita energia e obtém pouco resultado ao tentar acertar tudo que se move ao seu alcance. Quando somos jovens e ingênuos, apaixonados pela juventude, escutamos Forever Young acreditando não haver problema algum em sair bater clavas por aí dispersando o excesso de energia. É até legal carregar clavas grandes e pesadas para parecer que somos mais forte do que realmente somos.

O problema de carregar clavas pesadas é como aqueles problemas que só aparecem décadas depois. Com o tempo, a clava vai ficando mais pesada e difícil de manejar. A perda gradual da juventude dá a impressão de que o tempo passa mais rápido, uma vez que carregar clavas pesadas e esmagar coisas já não é tão fácil nem tão divertido como antigamente.

Carregar clavas pesadas e ineficientes é um símile para a tentativa sisífica de assimilação indiscriminada de informação sem senso crítico. Esse excesso de informação para se manter atualizado enfraquece a mente, deixando-a cansada e deprimida. Precisamos reagir enquanto temos tempo, para deixar de ser rombudos batedores de clavas e passamos a ser delgados e ágeis esgrimistas.

A transição do estado de mente grosseira para o de mente imbuída de sabedoria se parece com a transição de bateção de clavas para a esgrima, em que se troca o peso e lentidão da clava pela rapidez e precisão do florete. Diferente da clava, o manejo do florete depende da tomada de decisões rápidas e de concentração. Quanto mais refinada for a técnica do esgrimista, menos ele se cansa e melhores resultados alcança.

Muita informação não é sinônimo de qualidade
O manejo de informações se assemelha ao uso de clavas ou de floretes. Pouco adianta saber muito se o muito que sabemos não serve para melhoria da nossa qualidade de vida e da vida das pessoas ao nosso redor, não auxilia em nada na elevação da consciência, no sentido de estar presente e aberto para saber sentir nossos sentimentos e saber lidar com qualquer incômodo interno. O excesso de informação sem aplicabilidade direta e prática está mais para um fardo do que para um alívio.

Nem todas as pessoas consideradas inteligentes na cultura ocidental são calmas, tranquilas, práticas, pacientes, decentes, emocionalmente saudáveis e fáceis de lidar. A convivência tem mostrado justamente o oposto. Por saberem mais, as pessoas inteligentes tendem a demonstrar um nível de tolerância mais baixo e um nível de julgamento mais alto. Ser inteligente não quer dizer que a pessoa está certa, assim como a simplicidade intelectual não quer dizer que a pessoa está errada.

Informação e responsabilidade
É por isso que em certos monastérios os iniciados são convidados a contemplar a realidade antes de receberem mais ensinamentos. Lá, o propósito de receber pouca informação é evitar a influência do mestre na percepção do aluno. O aluno precisa aprender a investigar a realidade, a tirar suas próprias conclusões e, a partir delas, aprender a decidir, sabendo que suas decisões iram afetar, de maneira positiva ou negativa, a sua vida e a vida das pessoas ao seu redor.

Aquisição de sabedoria passa pela assunção da responsabilidade pelo resultado das próprias ações. O excesso de informação é o oposto disso. Quem gosta de acumular informação pode estar, de maneira indireta, se abdicando do poder de decidir e de assumir a responsabilidade pelas consequências das decisões que venha a tomar ou a omitir, pois a omissão, esse não agir, como todos sabemos, também é uma decisão.

A transferência do poder decisório é uma tomada de decisão infantil pela pessoa que evita assumir responsabilidades na vida. Ao transferir sua decisão para terceiros, o que a pessoa está fazendo é procurar alguém para culpar caso venha a experimentar os resultados negativos de uma escolha malfeita. Ela não quer aprender com os próprios erros, mas também não quer errar. Ao transferir seu poder decisório, ela pensa, ingenuamente, que também está transferindo a responsabilidade pela decisão e, quando tudo dá errado, ela vai querer culpar o outro pela escolha que ela deveria ter feito, mas não fez.

Sabedoria e ponto de vista
Na vivência contemplativa dos mistérios da vida, o excesso de informação funciona como uma lente grossa e turva a filtrar a percepção que o observador tem do objeto. Ao distorcer a realidade, a mente desprovida de sabedoria tende a valorizar mais o filtro do que a própria realidade. Uma situação pode estar acontecendo diante dos olhos da pessoa considerada inteligente, mas ela não consegue enxergar o fato e, pelo apego às informações, ela volta seu olhar para o intelecto, dando uma resposta dissonante e insossa, sem presença emocional e espiritual, totalmente alheia àquilo que sua situação de vida está tentando lhe mostrar.

O excesso de informação é o cimento da consciência na medida em que enrijece nosso ponto de vista. Uma pessoa bem nutrida de sabedoria sabe da provisoriedade de todos os pontos de vista. Enquanto a pessoa presa no excesso de informação usa o acúmulo desmedido de informações em sua tentativa inócua de cercar todos os pontos da realidade, a fluidez da pessoa flutuando no mar da sabedoria está pronta para abandonar opiniões pessoais para poder ver o que realmente está acontecendo, seja agradável ou desagradável. Sem preferências, ela entende que cada novo fato pede por um novo olhar.

Marcus Rosa
Professor do Curso de Meditação Para Iniciantes