INFOXICAÇÃO E MEDO DE NÃO SABER SEGUNDA PARTE – MARCUS ROSA

Identificando o problema
Lidamos com o excesso de informação da mesma forma que lidamos com qualquer outro problema: aprendendo a reconhecer perturbações em situações rotineiras e a identificar isso como sendo um problema. Parece fácil, mas não é tão simples.

As informações seduzem por sua aparente inocência. Ligamos o celular, checamos as mensagens e, quando vemos, passamos vários minutos ou mesmo horas distraídos em futilidades. Em sua aparente inocência, as informações transmitidas por essas novas tecnologias escondem algoritmos especialmente desenhados para manter nossa atenção aprisionada o máximo de tempo possível nas telas do computador ou do celular.

Há menos de trinta anos, a leitura de jornais, revistas, livros e artigos exigia um mínimo de concentração e atenção. Havia um esforço consciente e deliberado em buscar, pesquisar e absorver informações dessas fontes analógicas. Se antes precisávamos peneirar o que queríamos ler ou reter na mente, agora está cada vez mais difícil dizer não para o celular e internet, ainda mais com a inteligência artificial ativando áreas do cérebro relacionadas com a produção de dopamina. As curtidas dizem “eles gostam de mim”. As visualizações dizem “eles me enxergam”. As caixas de comentários dizem “eles me escutam”.

Quando nossa vida se resume a curtidas, visualizações e comentários, uma pergunta me vem à mente:

A que ponto chegamos como espécie?

Informação e sensação de segurança
A constante transformação do mundo exige contínua atualização. Além das coisas que normalmente acontecendo e que são noticiadas nos meios de comunicação, ainda temos que lidar com informações fabricadas. Enquanto nossos grupos de WhatsApp se multiplicam e as postagens no Instagram nunca terminam, devemos nos perguntar até ponto conseguiremos seguir tudo e a todos? É possível se manter eternamente atualizado?

De maneira geral, a ansiedade nasce da vontade de tentar barrar a impermanência, de tentar alcançar uma formatação interna em que possamos nos sentir seguros para dar uma resposta às exigências e demandas profissionais, sociais e pessoais. Queremos, inconscientemente ou não, alcançar o píncaro da estabilidade de uma águia pousada no cume da mais alta montanha que, acreditando-se plenamente realizada, contempla a vida dos meros mortais abaixo de si.

O problema é que mesmo a águia, tão bela e o poderosa, está sujeita a degradação final de todos os corpos grosseiros. Todos nós também estamos sujeitos ao desfalecimento das faculdades. Então, será que encontraremos segurança última na frenética retenção de informações que, assim como todas as coisas, também está sujeita à lei da impermanência?

O sentido da vida
Não sei vocês, mas ultimamente tenho notado que as pessoas vem reclamando cada vez mais da falta de tempo, afirmando que o tempo está passando mais rápido e que mal conseguem fazer as coisas que gostariam com o tempo que sobra. Muitos reclamam, mas poucos questionam. E dos poucos questionadores, menos ainda se perguntam se não seriam eles mesmos os agentes causadores da falta de tempo de que tanto reclamam.

Muitas pessoas mal terminam um projeto e já iniciam outros dois ou três. Elas dizem que “não conseguem ficar paradas”, e falam disso com orgulho e senso de superioridade. Mas será que os espaços vazios na nossa agenda não estariam representando um vazio existencial que achamos que devemos preencher compulsivamente, para eliminar, talvez inconscientemente, toda e qualquer possibilidade de contato com nós mesmos? É algo a se pensar, não?

As pessoas que tanto reclamam que o tempo está passando mais rápido do que antigamente talvez não estejam conscientes de que as habilidades humanas costumam lentificar ao longo da vida. Será que a energia de alguém de 20 anos não é a mesma de quando ela estiver com 40? E será que a energia de alguém com 40 anos de idade não permanecerá a mesma quando ela chegar aos seus 60, 80 e 100 anos de idade? Será que a impressão de que o tempo está passando mais rápido não vem da falta de aceitação de que estamos ficando cada vez mais lentos?

A cada ano que passa, muita gente usa a desculpa de querer viver a vida para se entupirem de atividades. Elas confundem viver com fazer, principalmente fazer as coisas que estavam acostumadas. E, quando o corpo começa a dar sinais de cansaço, em vez de se adaptarem às novas limitações físicas, abandonando informações irrelevantes e se concentrando nas informações essenciais ao bem-estar espiritual, começam a usar químicos (cafeína, Ritalina etc), a fim de tentar manter o desempenho que sempre tiveram.

Envelhecer é saber lidar com informações. Certos tipos de informações que foram bastante úteis no passado, que ajudavam a conversa de bar ficar mais interessante e empolgante, hoje podem ser prejudiciais por causarem preocupação com assuntos que não temos o menor poder de gestão e que nada tem a ver conosco nesta nova fase da vida. É por isso que para envelhecer bem, devemos aprender a poupar as energias para consumir as informações que realmente importam, que estão intimamente relacionadas com nosso destino.

Daí vem a pergunta fundamental:

Qual o sentido da vida?

É ler mais livros? É assistir mais vídeos? É ser um bom trabalhador?

Eu pergunto novamente?

Qual o sentido da vida?

A qualidade da resposta revela a qualidade da sabedoria. Muita ignorância deixa a vida mais difícil. Mais sabedoria deixa a vida mais fácil..

Marcus Rosa
Professor do Curso de Meditação Para Iniciantes