INFOXICAÇÃO E MEDO DE NÃO SABER – PRIMEIRA PARTE – POR MARCUS ROSA
O que está acontecendo com a humanidade?
A humanidade nunca teve tanto acesso à informação como agora. Ninguém mais se surpreende com transeuntes distraídos caminhando com o celular na mão. Esse incessante ver e ouvir sequestra não apenas nossa atenção, tornando-nos disfuncionais em diversos aspectos, mas também sequestra nossa capacidade de sentir e interagir com a realidade, principalmente a interna, sugando o que há de mais precioso em nossa humanidade.
O celular substituiu deus grego Hypnos como deus do sono. Tal como os antigos cristãos medievais curvavam suas cabeças ao passarem em frente às catedrais, os atuais nomofóbicos (termo usado para descrever a pessoa que tem medo de ficar sem o celular) reverenciam o celular como se fosse uma divindade tecnológica para a qual se sentem obrigado a dobrar seus pescoços com sinal de respeito e obediência aos mandamentos quase místicos, uma vez que são captados por ondas invisíveis.
Como nós, espécie humana, podemos despertar desse estado de entorpecimento profundo? Como podemos recuperar nossa humanidade? Como podemos aprender a lidar com as ansiedades e frustrações que são inerentes à vida humana?
Esse artigo é uma tentativa quase desesperada de ajudar a despertar os que perdidos nas tramas hipnóticas do excesso de informação e de mostrar meios simples e fáceis para lidar com realidade digital sem se perder nela.
Ruído branco
Com a desculpa da obrigação de se manterem atualizadas, muitas pessoas passam o dia entretidas em podcasts, noticiários e redes sociais, envolvidas em tudo quanto é tipo de assunto. O volume de vídeos e áudios que uma pessoa consome diariamente extrapola sua capacidade de processamento e retenção das informações, obrigando o cérebro a transformar essa enxurrada de dados em ruído branco para se proteger.
O ruído branco é o barulho incessante e repetitivo que algumas pessoas usam para relaxar. O barulho da chuva, o ruído antigo da televisão fora do ar, o chiado do rádio e até o som do tráfego de uma rodovia próxima pode ser considerado ruído branco. Chamamos de ruído branco esse tipo de som desprovido de mensagem relevante, que ouvimos sem saber que estamos ouvindo, tal como o barulho do ar condicionado que está sempre funcionando no escritório, mas que só nos damos conta quando ele para de funcionar.
Quando a mente não sabe ficar quieta e não sabe lidar com a agitação interna, ela procura combater informação com mais informação. Quantas pessoas não se deitam para dormir a luz do celular na frente do rosto até exaurir totalmente sua capacidade mental e fazer o cérebro apagar por cansaço?
A ineficácia dos extremos
Os excessos nunca funcionam por muito tempo. Excesso é um estado de desequilíbrio em um universo que prima pelo equilíbrio. Assim é a natureza, assim também somos nós. Nossa tendência natural é o equilíbrio. Quando comprometemos nossa capacidade de resolver problemas e de lidar com a realidade, nossa natureza começa a entrar em desequilíbrio, começamos a ter insônia, esquecimento, falta de concentração e irritabilidade.
Apesar de nosso instinto de sobrevivência gritar por atenção e autocuidado, como se dissesse: “Ei, amigo, cuidado com sua rotina dispersiva e atolada em excessos. Descanse um pouco, desligue o celular e a televisão. Viva um pouco mais no mundo físico”, nós teimamos em continuar fazendo o que estamos acostumados (ou condicionados) a fazer, sem nos importar com as consequências. E, para suportar o rojão, ainda tomamos suplementos e medicamentos para poder manter nossa rotina sem ter que lidar com as consequências das nossas ações. Nada como esconder os sintomas, não é verdade?
A Lei do Equilíbrio
Como a lei do equilíbrio é implacável, os excessos tendem a se compensar. Há um momento de quebra na psiquê humana em que nem a mente nem o corpo não aguentam mais seguir por esse caminho autodestrutivo ad aeternum. Os sintomas de exaustão mental ou burnout indicam que a pessoa já ultrapassou e muito a zona do gerenciamento natural do estresse e, se ousar continuar por esse caminho, pode ser que ela venha a ter que lidar com crises incontroláveis de ansiedade e de estados de depressão prolongada. Nos casos mais graves, a pessoa em desequilíbrio pode passar pela experiência de ter um AVC (acidente vascular cerebral) ou de experimentar ideações suicidas.
O excesso de informações e a inconsciência desse fenômeno esconde um sofrimento inenarrável. Primeiramente, devemos considerar que a busca excessiva por informações já é um sintoma de sofrimento em si. O direcionamento da atenção focada exclusivamente para o externo é sinal de não quereremos tomar contato com a nossa realidade interna.
Mas qual a razão de tanto medo de ver? De se encontrar? De olhar quem realmente somos?
Medo de se ver
Quase toda essa tecnologia virtual viciante está sacralizada neste medo do autoconhecimento. Como passamos a maior parte do tempo longe de nós mesmos, somos alienados da nossa natureza intrínseca e de longe desconhecemos nosso verdadeiro potencial de lidar com esse sofrimento do qual estamos sempre a fugir. Quando eu era criança, eu acreditava nessa fuga. Não fazia meus deveres de casa e acreditava que os problemas se resolveriam por si sós. A mente infantil pensa assim, ela pensa que se ela não olhar para um incômodo, fingindo que ele não existe, as coisas que incomodam vão desaparecer sozinhas com um simples movimento de uma varinha mágica.
Essa mente infantil ainda acredita que a solução para sua questão existencial reside fora de si mesma, fora do seu elemento humano. Por acreditar que “a resposta está lá fora”, a pessoa vive se enchendo de informação, buscando uma solução que ela nunca vai encontrar em podcasts, vídeos, cursos virtuais etc. A pessoa confunde a ânsia por informação com ânsia por sabedoria. A diferença é que o excesso de informação aprisiona, enquanto a sabedoria, ainda que pouca, liberta.
A virada de chave
Sabedoria pouco tem a ver com excesso de informação. Se assim fosse, os grandes sábios da humanidade jamais poderiam ser considerados sábios, uma vez que nesse novo milênio uma criança de 7 anos consegue acumular bem mais informações do que um imperador romano.
A sabedoria está mais relacionada ao poder de observação da realidade do que à quantidade de informação. Esse é o ponto de virada. Ao entender esse ponto, começamos a virar a chavinha da informação para a sabedoria fundamentada na calma, na tranquilidade, na elevação e na imperturbabilidade da mente.




