Tensões corporais e eventos traumáticos – Texto por Marcus Rosa
Dúvidas, dúvidas, dúvidas. Dúvidas profundas. Dúvidas existenciais. Dúvidas que todos nós, seres humanos que se esforçam no caminho do despertar, já fizemos e ainda faremos.
O alcance da consciência depende de diversos fatores. A concentração aquieta a mente e a atenção plena “escuta” as informações que ecoam dos cantos esquecidos da mente.
É interessante o entendimento das informações em forma de eco. As informações ecoantes surgem de algum lugar e momento da vida da entidade em amadurecimento. Pela ignorância, a informação entra na entidade e fica ali dentro, ecoando em busca de sentido, de significado, de entendimento. No entanto, enquanto vamos tentando entender, descobrir, lutar, brigar ou negociar com as impressões, vamos deixando de receber as impressões frescas que o momento presente está sempre a conceder.
Enquanto amadurecida, a pessoa não sente mais necessidade de ecoar, em seu mundo interno, as impressões recebidas pelos sentidos, criando proliferações ou construções mentais. Pelo treinamento da mente desapegada, nosso objetivo é aprender a sentir sem querer bloquear ou segurar sensações e sentimentos, permitindo a chegada e a passagem da existência no fluxo da impermanência.
Ao ecoarem nas mentes apegadas, as informações deixam suas impressões na mente e no corpo físico das pessoas. O corpo que reage contra os trancos dos sentimentos criados contra situações difíceis acaba criando nódulos de contração muscular ou orgânica como forma de sobrevivência. No momento de um evento traumático, quando, por exemplo, a criança é incapaz de reagir contra pressões e abusos familiares, a energia da reação fica aprisionada no corpo e não pode ser liberada. Vemos que os efeitos do trauma seriam menores caso a criança conseguisse fugir ou lutar, realizando completamente esses movimentos do início ao fim, sem necessidade de materializar a ação mental, verbal ou corporal interrompida sob forma de tensões no corpo.
O pior é que a simples passagem do tempo não dissolve as contrações e tensões no corpo, que permanece tenso e reativo indefinidamente até que a entidade eleve sua consciência ao ponto de permitir que a dissolução da energia bloqueada pelo movimento completo da ação que foi impedida de fazer.
Uma das tentativas inábeis de liberar as tensões corporais é pela reprodução inconsciente dos eventos traumáticos na personalidade. A mente entra no looping do “e se” e acaba ficando hiperativa, deixando as musculaturas ainda mais tensionadas. Esse “e se” pode aparecer como uma tentativa desesperada de investigar padrões de pensamentos inconscientes, querendo entender “porque eu sou assim?”, mas adianto, sem querer desanimar, que a atuação pura, simples e direta do intelecto tem seus limites. Não será pelo raciocínio ou pelo pensamento investigativo que as estruturas de conceitos errados que formam a base da ignorância e se manifestam em sofrimento no aqui e agora que isso serão dissolvidas. Precisamos ser espertos aqui.
Ser esperto não significa lutar com os pensamentos ou usar pensamentos conscientes para lidar com pensamentos inconscientes. Ser esperto é olhar para a tensão e perguntar: “o que você quer fazer?” e dar espaço para o músculo responder. Vimos lá em cima que as tensões acumuladas no corpo são movimentos interrompidos porque a criança não pode se manifestar completamente no momento crítico da situação traumática. Sendo assim, agora, enquanto adultos, nós podemos trazer dinamismo ao movimento estático ao perguntar para nossos ombros: “qual movimento foi interrompido aqui?”; “o que você quer fazer?”; “de que modo essa tensão está tentando me proteger?”
Quando ficamos parados e “damos” permissão para que o movimento se dê por completo, junto com a resposta muscular o desbloqueio das tensões poderá soltar memórias e emoções bloqueadas. Este momento é importante e precisamos estar atentos para alguns pontos:
1. A musculatura contraída tem se mantido contraída pela ilusão de que está nos protegendo. Em seu raciocínio imaturo, ela pensa (o corpo tem seus próprios pensamentos): (a) estou mantendo esse estado de tensão para proteger a consciência da entidade que aqui habita; (b) sem as tensões, a consciência da entidade ficará desprotegida; (c) relaxar o corpo significa, para mim, vulnerabilidade, e eu tenho certeza disso porque me machucaram quando eu baixei a guarda; (d) por fim, entendo que relaxar pode ser um movimento muito perigoso e que pode colocar a consciência da entidade em situação de risco novamente.
2. É preciso agir com gratidão frente às tensões. Como esse estado de tensão surgiu para nos manter VIVOS, não será fácil convencer as tensões de que elas não são mais necessárias no momento atual da sua vida. Então, ao sentir as tensões, lembre-se de agradecer por tudo que elas (acharam) que fizeram para protegê-lo até o momento atual. Use suas próprias palavras para expressar essa gratidão, direcionando sua atenção até o ponto de tensão muscular. Se você fizer isso corretamente, a consciência muscular captará a qualidade tranquila e amorosa das ondas dos seus pensamentos e sentimentos de gratidão e começará a responder de modo diferente.
3. Seja paciente por quanto tempo for necessário. Os movimentos delusórios de proteção estão demasiadamente arraigados no organismo e não se dissolverão em apenas algumas semanas de exercício consciente. Devido às suas profundas raízes, devemos entender que a consciência muscular ou corporal tem seu próprio tempo e agenda. Não é o meu tempo mental que é importante aqui, mas sim o tempo do corpo. Deixando o corpo sendo corpo, desprovido de toda e qualquer intenção de mudar a complexa rede de defesa do corpo, permita que, com amorosidade e paciência, as tensões possam se dissolver por elas mesmas. De tanto voltar nossa atenção para este momento, vamos mostrando para o corpo que as ameaças do passado não estão mais aqui, no presente.
4. Enquanto o corpo não relaxa, vá treinando a concentração e a imparcialidade, pois quando o corpo começar a liberar as tensões contraídas, ele também liberará emoções e pensamentos reprimidos. Aqui é de suma importância que a sua consciência não se identifique com as emoções e pensamentos que venham a surgir. A identificação ou qualquer tipo de reação de comiseração, pena, dó, vitimização e raiva realimentará as tensões, criando um novo ciclo de reatividade negativa e, com isso, mais dor e sofrimento. A chave do sucesso é criar um nível de imparcialidade tão grande ao ponto de ser possível sentir todos os sentimentos e emoções, deixando o corpo reagir e seguir esses movimentos até o final, até se esgotarem por completo e, assim, fechar um ciclo de dor e sofrimento.
Lembro-me, agora, da primeira vez que experimentei esse exercício que eu mesmo criei em mim mesmo já no início da minha carreira de meditador leigo, há mais de 15 anos. Bastava sentar para meditar que minha mandíbula começava a travar. Foquei a mandíbula e perguntei: “o que você quer fazer, dona mandíbula?”, e ela respondeu que queria extravasar todo ódio reprimido e acumulado dentro de mim. E eu perguntei novamente: “quais movimentos você quer fazer, dona mandíbula?”, e ela respondeu que queria abrir a boca o máximo possível, esticando o queixo para o teto, esticando o pescoço e abrindo a garganta. E assim fui fazendo, deixando os movimentos se completarem e as emoções fluírem como explosões nucleares dentro de mim. À medida que eu fui fazendo esse exercício, para minha surpresa, em vez de ficar mais relaxado, passei a tomar consciência de tensões pré-existentes, mas que antes não percebia. Trapézio, cervical, região dorsal e lombar das costas, glúteos, coxas, joelhos, panturrilhas, virilhas, calcanhares, dedão dos pés… enfim, todo corpo passou a clamar por minha capacidade atenção, acolhimento e amorosidade.
Aquelas tensões e contrações corporais mais evidentes do passado agora não existem mais. Porém, ainda hoje o corpo reclama, mas de modo bem mais sutil e refinado. Os efeitos dos traumas na musculatura, nos órgãos e nos tecidos parecem infindáveis. Quanto mais sutil e atenta a mente se torna, mais percebo minhas capacidade de intervir de maneira saudável nesse tipo de sofrimento. Nada fácil, mas perfeitamente exequível. A diminuição e extirpação de certos tipos de sofrimento traumático é perfeitamente possível. Sou a prova viva disso.




