Abusos, abusados e abusadores | Texto de Marcus Rosa

Outro dia, minha mãe exclamou seu choque ao ver impressionantes fotos de tratamento desumano nos presídios brasileiros. Em suas exatas palavras, ela disse “Meu Deus! Não sei o que dizer diante de tantos abusos!”

Diante de uma revelação chocante, o queixo cai, a garganta emudece, as palavras escapam e a mente tenta compreender o incompreensível, justificar o injustificável. O cérebro, numa tentativa desesperada de organizar as informações e dar uma resposta adequada aos fatos, pode cair na armadilha da justificação indiscriminada de qualquer coisa, inclusive os abusos mais artroses.

Quando falamos de abusos, melhor não pensar muito querendo encontrar culpados. O fato é que há abusos de um ser humano contra outro da sua espécie em toda história da humanidade. Uma das coisas mais importantes a se fazer é não ignorar o fato, fingindo o desconhecimento de que milhões de pessoas têm suas vidas emocionais corrompidas por reiterados abusos que estão acontecendo, exatamente agora, em várias partes do mundo. É um círculo vicioso que se perpetua geração após geração.

Em vez de ficarmos criando justificativas para abusos, abusados e abusadores, podemos perguntar para nós mesmos: como podemos quebrar, dentro de nós, a cadeia de abusos?

Primeiro passo: não aceitar ser abusado(a). Se você tem consciência de uma situação de abuso e tem forças para se defender, defenda-se. Use de todos os meios necessários para evitar situações de abusos, ainda que velados pela fala inteligente e ardilosa do abusador. Não caia nas artimanhas da conversa amenizadora de que você é uma pessoa que não aceita brincadeiras (de mau gosto) quando na verdade você é uma pessoa que não aceita abusos, principalmente os pequenos e inocentes abusos iniciais. Abusos pequenos tendem a evoluir. Melhor a oposição inicial, ainda que discreta, para estabelecer limites e evitar a escalada do abuso.

Segundo passo: não abuse de ninguém. Ao perceber a vontade de maltratar o outro com palavras, ações e omissões, ou até pensamentos, refreie a vontade pela visão correta de que isso é sofrimento e alimenta a cadeia de abusos. Em vez de alimentar abusos, alimente a vontade de não ser um abusador, ainda que sutil e velado. A vontade de abusar nasce de um sentimento ruim, angustiante, que o abusador não reconhece em si ou não sabe lidar. Em sua inabilidade de lidar com emoções e sentimentos difíceis, o abusador acaba usando o abuso como meio para extravasar essa energia deletéria em forma de palavras e ações contra pessoas próximas ou distantes, ou mesmo animais e plantas. O não abusar de ninguém requer aprender a permanecer com os próprios sentimentos, sentimentos de qualquer qualidade e intensidade, mas sem se identificar com as manifestações de negatividade e seus impulsos destrutivos. É um trabalho difícil, mas executável pelos meios corretos. A meditação é um desses meios.

Terceiro passo: não seja abusador(a) de si mesmo(a). Mesmo sem abusar dos outros, há pessoas que direcionam a energia de sentimentos e emoções perturbadoras contra elas mesmas, se maltratando e até se lesionando a partir da crença de que não são merecedoras de carinho, afeto, amor e reconhecimento. A distorção dos pensamentos faz com que pensem que nasceram para aguentar dor e sofrimento, fazendo com que criem, de modo inconsciente, aflição e pesar desnecessários. Se não provocam autoaflições diretamente, podem buscar, indiretamente, situações ou relacionamentos abusivos, negando e escondendo a faceta abusador/abusado interno que habita nas profundezas do subconsciente. Por não acreditarem que podem melhorar, que podem ser livres do abusador(a) interno(a), deixam de levar uma vida com mais liberdade, amor e dignidade.

Quarto passo: não se cale. A indiferença pelo pensamento “é o outro que está sofrendo, não eu” fortalece e normaliza práticas abusivas. Se nada fazemos para proteger as pessoas que estão sofrendo abusos, ninguém fará nada para nos proteger se algum dia viermos a sofrer abusos e injustiças. Se o abuso e a violência se normalizarem, todos nós ficamos desprotegidos. Precisamos manter na mente a firme noção de que proteger o outro é proteger a si mesmo.

Quinto passo: equilibre sua mente. Se se noticiam muitos abusos, devemos ter em mente que a vida humana não é feita apenas de sofrimentos e de abusos. Tanto a mente de quem abusa quanto a de quem sofreu abusos podem aprender a abandonar estados mentais prejudiciais e a desenvolver estados mentais saudáveis, harmoniosos e benéficos. Em um mundo desequilibrado, a mente equilibrada ajuda a harmonizar ambientes, pessoas e relacionamentos. A alegria e o contentamento servem para curar as mágoas e ressentimentos do passado, criando a esperança de uma vida interna mais suave, relaxada e tranquila. O equilíbrio que criamos dentro de nós é o equilíbrio que podemos oferecer à humanidade, aos animais, às plantas e a todos os seres.

Meditar no silêncio, deixando passar as histórias disso e daquilo, histórias que nos mantém estagnados nos limites estreitos da identidade, permite criar um distanciamento saudável entre a mente que observa e o objeto observado. Cada um de nós não é o que acha que é. O que fizemos ou o que sofremos não define nosso destino. O universo está sempre girando, mudando, se transformando. Nós também estamos em constante transformação, alteração, mudança. O desapego imparcial aos sentimentos e emoções negativas cria um estado de não-reatividade onde cessamos, literalmente, de alimentar as abusividades ativas ou passivas dentro de nós. Sem alimentos, os sofrimentos murcham e secam até cessarem por completo. O outro lado, o melhor lado da história, é saber da consciência do nosso poder de influenciar positivamente a linha de mudança e alteração a qual todos estamos sujeitos, para, literalmente, criar uma vida mais aberta a sorrisos e demonstrações de ternura, amor, amizade e bem-querer.

Autor: Marcus Rosa, Prof. do Curso de Meditação Para Iniciantes