Amadurecimento Emocional – Texto por Marcus Rosa

Imagine seu “eu criança” conversando com a pessoa que você é hoje, seu “eu adulto”. O que o adulto de hoje falaria para a criança de ontem? Como você adulto ajudaria sua versão infantil a atravessar os momentos de dor, de frustração, de carência e de solidão? Qual lição você daria para aquela criança que um dia se sentiu superior aos demais coleguinhas devido a pequenos ganhos? Que ensinamento o adulto ensinaria para a criança a lidar com os inevitáveis altos e baixos da vida?

A relevância da sabedoria transmitida pelo adulto de hoje para a criança de ontem dependeria, numa hipótese de máquina do tempo, do grau de maturidade emocional que o adulto conseguiu desenvolver ao longo da vida. O tempo, por si só, não melhora nem piora ninguém; não dá para uns ou retira de outros. O tempo é uma linha causal-consequencial de ações e reações que altera a qualidade das nossas emoções a depender da qualidade das nossas escolhas.

Para melhor entendimento do significado de amadurecimento emocional, vamos tentar diferenciá-lo da imaturidade emocional.

Amadurecimento emocional envolve aprender a lidar com emoções e frustrações, significa saber assumir as perdas com o queixo erguido sem se esmorecer diante das dificuldades, escolhendo as lamentações em vez do enfrentamento.

Uma mente imatura se perde nas baixas e se enaltece nas altas. Ao se identificar com as circunstâncias do momento, seus humores se alteram à medida que a qualidade da sua perspectiva perante o mundo também se altera. Diante de tanta alteração, tanto interna quanto externa, as emoções da mente imatura sente tendem a flutuar ao sabor do bom ou mau, do certo ou errado, do gosto ou não gosto. É um eterno “a depender de…”.

Em contraposição, a mente madura procura não se perder nos altos e baixos da vida, mas, se se perder, sabe como voltar. Sua estabilidade emocional não depende inteiramente de ganhos e perdas. Nas inerentes flutuações da vida, a mente madura entende que pouco adianta a tentativa ferrenha de controle para manter, a qualquer custo, as circunstâncias consideradas positivas que causarão as emoções consideradas adequadas, bem como a tentativa de manter afastadas as circunstâncias consideradas negativas que dão causa ao nascimento de emoções consideradas negativas.

A cada flutuação, positiva ou negativa, apesar de a mente madura sentir os baques das mudanças abruptas da vida, ela procura não perder o foco do objetivo maior, mais nobre, mais conectado com o fim último da existência humana. A cada ponto de interseção, a cada momento de expectativas quebradas ou de visões de mundo destruídas, a mentalidade emocionalmente amadurecida busca pela resposta mais saudável diante do sofrimento, aquela resposta que permite, ao mesmo tempo, diminuir o sofrimento e evitar a criação de novos tipos de aflição a longo prazo.

Nesse ponto de interseção, nem sempre a mente madura opta por escolhas fáceis, doces e agradáveis. Se a atitude mais difícil, mais amarga ou mais desagradável estiver conectada com o mais saudável, a mente emocionalmente madura não hesitará em fazer o que precisa ser feito nem em abandonar o que precisa ser abonado.

Bem diferente da mente emocionalmente amadurecida, a mente imatura é como uma criança incontrolável em sua ânsia por doces, sorvetes, balinhas e chocolates. Em sua imaturidade, não consegue vislumbrar as consequências de suas escolhas. Ela pouco está se importando com as dores de dentes causadas pelas cáries, com problemas cardíacos advindos do sobrepeso e com as amputações dos membros necrosados com o avanço da diabetes crônica.

A mente imatura quer satisfazer todos os seus anseios aqui e agora sem se preocupar com os resultados das suas ações. Ela não sabe esperar. Aliás, qualquer tempo de espera, ainda que mínimo, é fonte de grande dor e sofrimento. Ela acha que o mundo lhe deve, que seus pais lhe devem, que seus irmãos lhe devem e que a vida lhe deve. Ela afirma que não escolheu nascer neste mundo, nesta família ou nesta sociedade e se enraivece com tudo e com todos. No auge da sua infantilidade emocional, tudo e todos são responsáveis por seu sofrimento, por sua angústia existencial, menos ela mesma. A mente emocionalmente imatura culpa a todos, eximindo a si mesma de qualquer responsabilidade.

Na sua imaturidade emocional, a mente não sabe lidar com o próprio sofrimento nem é capaz de enxergar o sofrimento alheio. Cenas de refugiados de guerra, de atropelamentos e de lágrimas dos pais que perderam seus filhos pouco ou nada lhes afeta. São indiferentes ao mundo e aos próprios sentimentos.

O não sentir é o fundo do poço da imaturidade emocional, é o recôndito mais obscuro da personalidade que não sabe coisa alguma sobre o que está sentindo. Com suas defesas permanentemente levantadas, tudo pode ser uma ameaça contra sua busca pela satisfação irrefreada e eterna fuga do sofrimento, não importam os meios. A mente imatura declara inimizade eterna àqueles que possam aparentar uma ameaça à frágil estabilidade de seu pequeno microcosmo de ilusório poder e controle.

A mente imatura dá vários sinais de comportamento ditatorial em seus relacionamentos. Tudo precisa, ou deve ser do jeito dela. A fim de prevenir ataques de fúria ou de choro, as pessoas que lidam com uma pessoa emocionalmente imatura sabem que estão lidando com uma pessoa instável, capaz de mudanças repentinas de humor, e se sentem como se estivessem tentando andar sobre uma fina camada de gelo escorregadio que, ao menor descuido, pode se quebrar e as afundar para a escuridão abissal do lago.

A mente imatura é caprichosa ao querer tudo do jeito dela o tempo todo. Basta receber um olhar meio de lado para a mente imatura se sentir desconfortável e passar a gritar descontroladamente: “o que é que você está olhando?”, como se ninguém pudesse olhar para ela.

A mente imatura acha que precisa controlar o que as pessoas estão pensando sobre ela. Ela não consegue ouvir “não” e não sabe lidar com a rejeição. Para ela, todas as pessoas de todos os lugares devem aceitá-la incondicionalmente e ninguém pode ter liberdade de escolher, de pensar e de expressar uma opinião diferente.

Em sua instabilidade, a mente imatura se afasta de pessoas de opinião contrária, isso quando não se enfurece por completo ao confrontá-las. Os de opinião ou pensamento dissonante são imediatamente taxados como estúpidos, ignorantes ou radicais partidários.

Para a mente imatura, todos são radicais, exceto ela; todos devem mudar, menos ela. Ela tem a solução para todos os problemas de todas as pessoas, mas é cega para enxergar uma nesga de defeito ou de limitação em si mesma.

A imaturidade emocional custa caro. A pessoa vive uma vida estreita, limitada, carente e repleta de angústia e insegurança. Instintivamente, ela sente que pode perder tudo que gosta e, por isso, tenta exercer seu contínuo controle mesquinho sobre pessoas e coisas.

Em sua rigidez, ela luta uma luta insana contra a impermanência, onde tudo está parado e nada pode fluir. Não há espaço para a alegria descontraída, para o sorriso espontâneo e para a conversa improvisada e leve.

É preciso se reconhecer como uma pessoa emocionalmente imatura para querer buscar a maturidade emocional. O caminho da imaturidade à maturidade é longo, cheio de desafios, de reconhecimentos de verdades incômodas e de quebras de orgulhos, presunções e fingimentos. Pode ser difícil, mas é plenamente possível.

Em resumo, podemos elencar os seguintes passos para o amadurecimento emocional:

1. Deixar de culpar o mundo e as pessoas: o primeiro passo para o amadurecimento é parar de transferir responsabilidade pelo que acontece em sua vida para terceiros. Não culpe ninguém pelas emoções e sentimentos que você está sentindo agora;

2. Assumir total responsabilidade por suas emoções e sentimentos: as emoções e os sentimentos estão dentro de nós, logo é nossa responsabilidade aprender a lidar com eles. Quando assumimos responsabilidade pelo que sentimos, podemos mudar a qualidade do modo como lidamos com nossas emoções e sentimentos.

3. Reconhecer a possibilidade de mudança: o desconhecimento da possibilidade da mudança da qualidade do mundo interior não permite o esforço necessário para a mudança. É preciso ver claramente a mudança como algo factível e viável antes do empreendimento de esforço e energia na senda da autotransformação pessoal e emocional;

4. Pagar o preço da mudança: nós estamos viciados em nós mesmos, viciados nesse ser que adora pensar, sentir e repetir sempre as mesmas coisas. Para ser diferente é preciso saber abandonar o hábito de repetir sempre os mesmos pensamentos e comportamentos. É no “parar” de fazer o que se gosta ou o que estamos habituados a fazer que passamos a sentir a dor da abstinência. Precisamos aprender a lidar com essa dor.

5. Saber parar, saber permanecer: como todas as coisas são impermanentes, a dor do “parar” de fazer sempre as mesmas coisas que dão causa ao sofrimento também é impermanente. Essa dor, qualquer que seja, vai passar. É nesse ponto que entramos com a prática da meditação. Essa prática ajudará a criar um espaço de imparcialidade na mente, permitindo que o surgimento e desaparecimento de todas as coisas, sem apego ou aversão.

6. Não identificação com as emoções: nesse espaço de abertura, a mente se permite sentir todas as emoções sem discriminação ou preferências. Quando somos capazes de sentir tudo e permitir tudo, um variado leque de opções se abre e a vida se torna mais rica, leve e divertida.

7. Novas escolhas, nova vida: aqui precisamos aprender a lidar com o medo do desconhecido e começar a encarar não só a realidade externa, mas principalmente a realidade interna, se quisermos ampliar nossos horizontes emocionais e parar de ser refém de memórias traumáticas.

8. Seja leve, seja feliz: não se incomodar com o que os outros fazem ou deixam de fazer é um grande sinal de maturidade emocional. A pessoa emocionalmente madura entende que o principal âmbito de atuação dela é interno, no campo das próprias emoções e sentimentos. O que o outro faz é mais uma questão do outro do que um problema pessoal seu. Se a pessoa usa uma camisa amarela e você não gosta de amarelo, e daí! Porque se irritar com o que é do outro? O modo de viver do outro é mais uma questão do outro do que sua. Quando presenciamos alguém fazendo ou deixando de fazer alguma coisa que é contrária aos nossos valores e não somos mais mexidos por isso, conseguimos vislumbrar um raio de luz de liberdade emocional. Mais importante do que o que o outro faz ou deixa de fazer, é conhecer a si mesmo, sabendo como isso está chegando a cada um de nós, como isso nos afeta e porque nos afeta. A resposta para essas perguntas está dentro de cada um de nós.

Autor: Marcus Rosa, Prof. do Curso de Meditação Para Iniciantes