Oração é um tipo de meditação? – Texto de Marcus Rosa

 Muito se questiona se a prática de meditação se assemelha a fazer orações. A resposta a essa pergunta costuma ser sim e não, a variar conforme o tipo de meditação. Vamos começar pelo não.

Crenças em entidades supramateriais

A oração pode assumir vários significados. Em alguns deles, orar é estar em comunhão com uma ou várias entidades imateriais superiores. Aqui a pessoa não está sozinha, ela busca contatar seres benfeitores ou comungar diretamente com Deus. A oração seria o meio hábil de fazer esse contato.

Diferente da oração, a prática da meditação da atenção plena não exige crença em qualquer tipo de entidade. A pessoa se conecta com sua própria experiência no aqui e agora, interna e externamente, momento a momento, consciente do repouso da sua atenção no objeto escolhido ou captado pelos sentidos.

Vemos que na oração é comum a crença no auxílio ou contato com uma entidade benevolente externa, enquanto que na atenção plena o que vale é a consciência da experiência em si bem como dos efeitos desse contato no corpo e na mente em tempo real. Esse contato com a própria experiência prescinde de crença. É mais sentir do que crer.

Na contemplação da respiração, por exemplo, a pessoa não precisa acreditar na respiração, ela precisa buscar a existência ou não da respiração no corpo a partir da sua própria experiência. A atenção plena procura esse aspecto experimental em todas as experiências, das mais grosseiras às mais sutis.
Ademais, quando as crenças pessoais não se coadunam com a realidade, convém ao praticante de meditação questionar suas crenças, principalmente as crenças sobre que tipo de pessoa ela acredita que é, crenças sobre a necessidade sofrer contínua e indefinidamente ou sobre e a possibilidade de fazer ou deixar de fazer alguma coisa para cessar o sofrimento.

As intenções

Outro diferencial são as intenções. É comum a associação entre oração e religiosidade, em que o ser orante procura pedir, agradecer, louvar, confessar ou expressar devoção. Na atenção plena, o ser contemplativo não procura desenvolver nenhum tipo de intenção específica além da intenção de estar consciente das intenções que atravessam seu campo mental. Atenção plena é ter a intenção de estar consciente das intenções.

Sem se identificar com as intenções, sejam elas agradáveis ou desagradáveis, certas ou erradas, boas ou más, o meditador em atenção plena procura permitir o trânsito livre das intenções sem julgamento, observando e deixando passar, sem apego ou aversão a qualquer tipo de pensamento e emoções correlatas. Aqui não há intenção de alcançar algum resultado específico. O resultado buscado na atenção plena é apenas o de querer estar onde realmente estamos; apenas sentir que somos o ser quem realmente somos.

Compreensão da realidade

A compreensão da realidade também pode ser um ponto distintivo entre as duas práticas. Durante a prática da meditação, o praticante passa a compreender a relação de causa e efeito entre suas ações mentais, verbais e corporais e sua experiência de felicidade e sofrimento. Por meio dos insights, a atenção plena leva a pessoa praticante a notar como sua compreensão da vida e da existência molda sua forma de pensar e se expressar, induzindo-a a comportamentos saudáveis ou prejudiciais, em termos de criação de experiências agradáveis ou aflitivas.

Algumas pessoas procuram usar a oração como causa para desencadear um efeito específico que elas querem alcançar em suas vidas. Intencionalmente, elas criam uma intenção saudável de que serão auxiliadas em suas necessidades pelos seres superiores que a protegem e zelam por sua segurança e bem-estar.

Pontos afins entre oração e atenção plena

Na atenção plena, o meditador procura praticar a observação imparcial da realidade para reconhecer e abandonar eventuais falhas de percepção que criam uma compreensão incorreta – que conduz ao sofrimento. Ao mesmo tempo em que se procura corrigir os próprios pontos de vista, o meditador se dedica a edificação da sabedoria na mente pelo entendimento de que cada pessoa constrói, consciente ou inconsciente, o conjunto de experiências que experimenta na vida.

Nas orações consideradas elevadas e amadurecidas, a pessoa compreende sua participação nos eventos que experimentou ou que virá a experimentar, mas busca todo tipo de auxílio possível para tentar compreender o caminho hábil para a bem aventurança, ainda que esse caminho seja diferente daquilo que ela considera mais correta. Ao dizer “faça a Sua vontade”, o orador está disposto a rever seus pontos de vista e a pagar o preço da mudança de atitude.

A humildade da pessoa madura que pratica orações elevadas e está disposta a se corrigir, a se transformar internamente, se assemelha muito ao desapego do meditador que percebe seus erros de percepção frente à realidade que contempla. O orador humilde reconhece sua pequenez diante do Criador e da criação, entende que pouco sabe e que ainda tem muito a aprender. Ao saber disso, ele se abre para os mistérios da criação e do Criador e entra em estado de recepção intuitiva, estado esse que pode se assemelhar aos insights dos praticantes de atenção plena.

Oração e bondade amorosa

A meditação da bondade amorosa é mais próxima da oração do que da meditação da atenção plena. Tanto a bondade amorosa quanto a oração visam à criação de estados mentais saudáveis na mente e no coração. As intenções são semelhantes ou podem até coincidir.

A bondade amorosa e a oração se baseiam na criação de intenções saudáveis na mente pela repetição verbal e prática imaginativa. A intenção em ambas é a superação do sofrimento e o desenvolvimento de emoções e sentimentos hábeis, belos, elevados e curativos frente às dificuldades inerentes à existência humana.

A diferença é a questão da crença. Na oração, há o aspecto da crença em divindades, enquanto que na bondade-amorosa a pessoa procura criar em si mesma a intenção saudável, permanecendo em segundo plano a crença ou não em divindades ou seres extrafísicos.

O que importa, tanto em uma quanto em outra é a criação de uma mente mais saudável, mais forte e mais benéfica. Quem ora ou pratica meditação da bondade amorosa para se melhorar como ser humano ajuda não somente a si mesmo mas todos os seres vivos que estão ao seu redor. A bondade amorosa e a oração permitem a abertura do coração e a partilha do bem-estar físico, mental e emocional com toda humanidade.

Conclusão

A meditação da atenção plena é fundamental no desenvolvimento de uma mente saudável, conectada à realidade e capaz de transcender a reatividade emocional condicionada. Ela permite a redução do estresse, da ansiedade e promove diversas mudanças significativas em todas as dimensões humanas.

Entretanto, quando a mente se torna sutil pelo incremento da capacidade de estar plenamente atento à realidade que escondemos de nós mesmos, pode ser difícil de encarar nossa indisposição a reconhecer nossas falhas de caráter, erros de compreensão, vícios e apegos, medos e traumas, cobiça e mesquinhez. É neste ponto que entendemos a importância da prática da meditação da bondade-amorosa e/ou da oração em nossas vidas.

As pessoas não espiritualizadas podem se beneficiar da prática da meditação da bondade-amorosa para criar, desenvolver e aperfeiçoar estados mentais saudáveis, leves, elevados e sublimes que certamente a ajudarão a atravessar os inevitáveis momentos de dificuldades por que todos nós passamos.

As pessoas espiritualizadas ou religiosas podem se beneficiar tanto das práticas elevadas de oração como das práticas de meditação da bondade-amorosa para ajudarem a regular aspectos sentimentais e emocionais. No entanto, é sempre estar atento aos riscos do pensamento mágico de achar que uma entidade superior cuidará de nos proteger ainda que venhamos a nos dedicar à prática de atos nefastos.

A lei da responsabilidade pessoal é válida para todos os seres. Cada um de nós é responsável pela qualidade da própria mente e das próprias ações. Tanto a felicidade quanto o sofrimento são cultivados momento a momento, no aqui e agora, a depender da qualidade da nossa mente. Ainda que entidades humanas ou divindades estejam prontas a nos auxiliar em nossa elevação espiritual ou moral, a efetividade da ajuda dependerá da nossa disponibilidade de abandonar o mal, fazer o bem e purificar a mente.

Autor: Marcus Rosa, Prof. do Curso de Meditação Para Iniciantes