Você tem receio de fazer um retiro de meditação? | por Marcus Rosa
Já participei de centenas de retiros de meditação Vipassana em várias partes do mundo, com diversos tipos de mestres e professores, bem como já conduzi dezenas de retiros sem nunca ter nenhum tipo de questão grave comigo ou com os retirantes. Ocorre que basta uma pessoa passar por dificuldades para virar notícia e começarem a criar um medo em torno de uma prática que é bastante segura.
Se observarmos os noticiários, principalmente os mais populares, veremos uma coletânea de exceções todas reunidas com o propósito de gerar e alimentar sentimentos de medo, ódio e indignação na população. O mesmo acontece com a meditação. Alguém seleciona uma exceção de alguém que passou mal em um retiro de meditação Vipassana, normalmente sem avaliar todos os dados ou ouvir todos os lados, e transforma isso em uma notícia. E a exceção vira regra.
Quem tem medo quer justificar o medo que sente. E por que? Porque o medo precisa ser alimentado com justificativas para se perpetuar na mente. Uma vez convencida de que o medo é real, o próximo passo é a propagação do medo, para que outras pessoas também sintam esse sentimento negativo. O interessante é que tudo isso é natural. Nossa mente funciona assim. Se estamos desatentos ao que se passa na mente, a tendência é que o medo se autojustifique e, alimentado, vá aumentando, aumentando, aumentando até afetar nossa percepção da realidade e qualidade de vida.
A questão é: há motivo para temer a participação em retiros de meditação? Acho que a resposta mais saudável é: depende! O risco de acontecer algo desagradável está presente em todos os eventos da vida. Nada é 100% seguro. O risco de pane e queda é inerente à viagem de avião; o risco de acidente é inerente à viagem de carro; o risco de queda é inerente ao banho de chuveiro. As pessoas até correm o risco de se engasgarem com a comida que comem ou com a água que bebem. Todos esses riscos são riscos inerentes à própria existência humana.
A tentativa de viver uma vida totalmente sem riscos é viver uma não vida. É ilusão. Com medo de se abrir para a vida, a pessoa se enterra em um vazio existencial onde passa a temer a tudo e a todos. Ela não interage, não experimenta, não se supera, não se eleva e não se liberta; ela apenas se esconde e sua mente normaliza o ato de se esconder. Viver de verdade é viver com vontade. Viver é sentir, é mergulhar nos sentimentos e saber que podemos sobreviver a qualquer coisa. Nenhum sentimento nos limita.
Um retiro de meditação Vipassana também tem seus riscos. É por essa razão que a Sociedade Vipassana de Meditação procura tentar prever e minimizar ao máximo qualquer tipo de risco. Incentivamos a participação de pessoas com experiência em prática de meditação ou que tenham feito pelo menos um de nossos cursos para iniciantes. Experiente ou não, a pessoa que quiser participar deve preencher um formulário cientificando a equipe de voluntários sobre as suas condições físicas e psicológicas. Em casos isolados, recomendamos, expressamente, a não participação do retiro, mas isso varia caso a caso e procuramos conversar com a pessoa antes.
Nossos instrutores possuem décadas de experiência em condução de retiros, possuem vasto conhecimento experimental acumulado e têm muito a partilhar. Se algum participante sentir dificuldades de prosseguir no retiro, há sempre a oportunidade de conversar com a equipe ou com os próprios instrutores. Além disso, a SVM mantém contato com psicólogos e médicos que estejam participando do retiro que podem ajudar em casos urgentes. Na falta desses profissionais, os voluntários da SVM são instruídos a conduzir a pessoa ao hospital (e isso só aconteceu uma vez, quando uma participante pisou em falso enquanto andava e admirava os passarinhos cantando à sombra de uma árvore).
Ademais, prezamos pela flexibilidade e leveza nos retiros. Nenhum dos retirantes é obrigado a nada e qualquer pessoa pode se sentir à vontade para deixar o retiro a qualquer momento. Não convencemos ninguém a ficar. Apenas procuramos ouvir para entender o que está se passando.
Sentir dificuldades em um retiro de meditação é a coisa mais normal do mundo. O corpo e a mente requerem um tempo para se adaptarem ao lugar, às refeições, à postura sentada, à meditação andando, ao silêncio. A mente reage contra o diferente. Ela briga e esperneia; faz birra mesmo. No entanto, se ousamos continuar e nos esforçar para superar as reclamações da mente aversiva (tá calor; tá frio; tá seco; tá chovendo; tá silêncio; não tá silêncio…), veremos que, ao final do retiro, será muito difícil encontrar alguém que não tenha experimentado sentimentos de contentamento e felicidade ao sentir que superaram os desconfortos do corpo e as fantasias aversivas da mente. Rostos sorridentes e lágrimas de alegria costumam marcar os momentos finais de despedida de um retiro. Só participando para saber.




