Sobre a entrega | por Marcus Rosa

O verbo entregar-se parece ser de fácil conjugação. Só parece. Na prática, é superdifícil. O que impede é o medo. Medo de quê? Medo de admitir a vulnerabilidade da vida humana? Medo de passar vergonha? Do risco à imagem pessoal? Só quem se entrega conhece o profundo significado da completa entrega. Não importa que dê tudo errado ou que o resultado seja diferente do previsto. Quem se entrega não se prende a expectativas. Aberto e lançado ao espaço, só quem se entrega experimenta a realidade como ela é. No momento único da entrega, nada pode estar errado. Tudo está em seu lugar. Estamos em nosso lugar. Quem esperneia não se entrega. E quem não se entrega não se maravilha com a infinita beleza da vida em constante mutação. Entregar-se e abrir-se junto com o botão de uma flor, mas também murchar junto, secar junto e cair junto sem nada segurar. Entregar-se é saber voltar para casa, nosso verdadeiro lar.

Cinco anos atrás, no funeral de uma tia minha. chorei desesperadamente por três dias seguidos. Não contive as lágrimas. Chorei com vontade. Resisti à vontade de reprimir o choro e segui em frente. Depois de tanto chorar, percebi que chorava minha própria morte e não a morte da minha tia. Estava de luto por mim mesmo. Eu morri. De alguma modo, alguma coisa profunda em mim morreu naquele luto. Assim como nas histórias do evangelho, ressucitei no terceiro dia cheio de alegria e gratidão pela vida. Senti vitalidade no corpo e clareza na mente. A vida tomou outro significado. Soltei.

Essas pequenas entregas que fazemos são como pequenas mortes. Entregar-se é, para mim, a aprender a morrer para tudo o que seja conhecido, é como pular de olhos vendados no precipício do desconhecido sem corda de segurança ou garantias. Durante a queda, vivemos. Respiramos. Ao final da queda, a vida continua, mas de outro modo. A antiga energia se dissipa aqui para reaparecer ali. Tudo é movimento. Movimento é entrega. Entrega é movimento.

É por isso que costumo dizer que a vida é uma corrida para ver quem solta mais e melhor. Vamos soltando, primeiro, as coisas inúteis. Depois, as atividades fúteis. Continuamos praticando o soltar e avançamos para aprender a soltar nossos gostos e desgostos, nosso querer e não querer. Em um ponto da caminhada, vamos aprendendo a soltar coisas, pessoas e situações que apreciamos e temos carinho. No final, se conseguimos nos tornar especialistas em soltar, vamos soltando nossa identidade e tudo o que nos define. Até que, ao cruzar a linha de chegada, soltamos a última exalação. Ahhhhhhh. Liberdade!

Autor: Marcus Rosa, Prof. do Curso de Iniciantes