Quando a dor não é vilã, o prazer não é herói | por Lorrany Estacio

Há algo de profundamente humano em querer compreender o motivo por trás de tudo, como se o sofrimento fosse um castigo por termos feito algo errado, e a alegria, um prêmio por termos agido “certo”. Mas a vida, silenciosa e sábia, não faz trocas nem barganhas. Ela apenas é.

A dor não chega como punição. Ela chega como uma estação: às vezes fria, estéril, difícil de atravessar, como o inverno que tudo adormece. E o prazer, também, não vem como um aplauso. Ele é o frescor de uma brisa, o brotar de uma flor na primavera, algo que simplesmente acontece quando as condições permitem.

O erro é nosso: acreditamos que a vida deveria seguir uma lógica moral imutável. Que, se formos bons, seremos poupados. Que, se formos fortes, não quebraremos. Mas tudo quebra. Tudo muda. Tudo passa. A impermanência não é uma falha do sistema, é a própria natureza dele.

É difícil aceitar que o que mais amamos pode nos ser tirado sem aviso. Ou que aquilo que nos destruiu um dia também passará. Mas, ainda assim, é verdade. Nada é fixo. Nem o medo, nem o amor. Nem a dor que parecia eterna, nem a euforia que prometia durar.

É por isso que não devemos temer a mudança, mas sim aprender a dançar com ela. A dor nos mostra por onde não seguir; o prazer, por onde pode ser bom voltar. Nenhum deles é fim. São apenas sinais de um caminho em constante renovação.

No fundo, tudo é transição. E talvez o maior alívio seja esse: não somos culpados por sentir. Estamos apenas vivos.

Autor(a): Lorrany Estacio, ex-aluna do MBSR. 
Texto inspirado no livro “Quando Tudo Se Desfaz” – Pema Chodron