O Treinamento em Vipassana Pode me Deixar Frio e Indiferente?

Pergunta sobre Vipassana:
Ontem, antes de dormir, tive umas reflexões sobre se o treinamento de vipassana poderia de alguma forma nos deixar mais frios e indiferentes, talvez seja uma forma equivocada de praticar a equanimidade, deixando de sentir, indo pra uma espécie de congelamento, será que pode acontecer?

Resposta de Marcus Rosa:
Justamente o oposto, minha querida amiga. A prática consciente abre o coração para experiências profundas. O congelamento nasce do prender, do não querer ver ou sentir. A mente aversiva nega a realidade. A mente compassiva é a que entende a realidade do sofrimento e procura diminuí-la. Talvez seja essa a razão para os verdadeiros mestres de Vipassana discursarem tanto sobre compaixão, bondade, generosidade, altruísmo, alegria, felicidade, pacificação e unificação da mente. A equanimidade abarca todas essas qualidade e muito mais. Equanimidade não é estado de mente estática e indiferente. Ao contrário, equanimidade é puro e constante movimento de transformação e direcionamento da mente para estados mentais mais sofisticados, o que uma mente humana comum, não treinada, pode ter mais dificuldade para acessar e sentir. Sentir equanimidade é não se deixar abalar por nada e continuar trilhando no desenvolvimento pessoal e grupal em todas as circunstâncias, favoráveis ou desfavoráveis. Sua atual circunstância com o câncer do pet poderá gerar revolta ou compreensão, mas isso será resultado dos seus condicionamentos saudáveis ou prejudiciais e, principalmente, do seu estado de presença. Revolta nasce da negação do fato, de querer que a realidade fosse diferente do que se apresenta. Compreensão nasce da aceitação do fato, de ver que as coisas são como são, que o sofrimento compõe a vida humana material. Por isso, em vez de fugir do sofrimento, é mais saudável entendê-lo para, então, superá-lo. Quando o sofrimento chega, não negamos: sentimos. É só se permitir sentir no corpo, deixando vir e deixando passar. O próprio Buda, depois de iluminado, sentiu muito a dor da perda do amigo Sariputta. Na ocasião, ele disse que sua dor era tão profunda que parecia que o sol e a lua haviam sido apagados. O segredo da equanimidade é sentir com imparcialidade e deixar os sentimentos passarem, atravessando o campo mental e corporal, sem histórias, sem apegos, sem nada; pois um novo sentimento está sempre a surgir onde um sentimento acabou de passar.

Autor: Marcus Rosa, prof. do Curso de Meditação para Iniciantes da SVM.