Cortisol, “hormônio do estresse” e meditação de plena atenção

O cortisol é um hormônio produzido no nosso corpo, essencial para a regulação de várias funções fisiológicas, incluindo a resposta ao estresse. Em uma resposta aguda, como por exemplo levar uma fechada no trânsito, o corpo ativa o eixo HPA (hipotálamo, a hipófise e a glândula adrenal) e aumenta brevemente os níveis de cortisol no sangue. O aumento de cortisol no curto prazo é uma preparação do corpo para um combate imediato, é natural para o corpo que seus níveis caiam em alguns minutos quando o perigo passar.

Contudo, muitas vezes, nossa mente racional, fica remoendo as situações de perigo, horas ou até mesmo dias, revivendo o evento em suas mentes. Assim, o eixo HPA continua ativo, criando assim níveis crônicos elevados de cortisol no sangue. E quais são os efeitos de cortisol cronicamente elevados no sangue?

Evidências científicas mostram que o cortisol prolongadamente elevado causa sintomas similares a depressão e a ansiedade. Além disso, a exposição prolongada ao cortisol muda o metabolismo cerebral propiciando o surgimento de sintomas depressivos e ansiosos.

A depressão e ansiedade são doenças complexas, e é difícil determinar uma causa única para elas, mas o estresse crônico associado a exposição crônica ao cortisol com certeza possuem um papel fundamental nesse ciclo de causa e efeito.

Como a meditação pode ajudar com essa situação? A meditação auxilia seu praticante a manter sua resposta ao estresse em nível agudo e adaptativo e não crônico. Vou dar um exemplo.

Há algumas semanas atrás, apresentei um machucado que não estava cicatrizando muito bem, então precisei ir ao médico e, no meu caso, havia a possibilidade real de fazer biopsia. No dia da consulta, acordei 3h da manhã assustado. E por ser treinado em mindfulness pelo Programa de Redução do Estresse da SVM (MBSR), pensei: “Isso é medo, tudo bem ter medo, nenhuma quantidade de ansiedade pode mudar o futuro, seja como for o dia amanhã, hoje você tem o presente de poder dormir em paz”. Respirei algumas vezes e voltei a dormir – no fim, descobriu-se que era só uma condição autoimune e benigna de pele.

No exemplo que eu citei, apesar de ter tido a um pico de estresse, eu me regulei e voltei ao nível basal, comum de equilíbrio psíquico. O Tiago do passado teria virado a noite com preocupações sobre possibilidades futuras. Esse é o poder da meditação.

Em parte, por regular o estresse crônico e portanto os níveis de cortisol cronicamente elevados, é que a meditação apresentou os mesmos níveis de eficiência para tratar transtorno de ansiedade como medicamentos antidepressivos muitos famosos tais quais Fluoxetina e Escitalopram (5).

Níveis cronicamente elevados de cortisol indicam estresse e as práticas contemplativas, como os cursos de mindfulness promovidos pela Sociedade Vipassana, podem ser parte da resposta para aqueles que sofrem com esse mal.

Links e Referências

1. Link para o vídeo no instagram da Vipassana

2. American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed.). Arlington, VA: American Psychiatric Association.

3. Qin DD, Rizak J, Feng XL, et al. Prolonged Secretion of Cortisol as a Possible Mechanism Underlying Stress and Depressive Behaviour. Scientific Reports 2016; 6:30187

4. Shoji H, Maeda Y, Miyakawa T. Chronic Corticosterone Exposure Causes Anxiety – And Depression- Related Behaviors With Altered Gut Microbial and Brain Metabolomic Profiles in adulta Male C57bl/6j Mice. Molecular Brain. 2024; 17 (1): 79.

5. HogeEA, Bui E, Mete M, et al. Mindfulness-Based Stress Reduction vs Escitalopram for Treatment of adults with anxiety disorders: A Randomized Clinical Trial. Jama Psychiatry 2023; 80 (1): 13-21

Tiago Leal , médico, formado em filosofia pela UnB e apaixonado por neurociências e saúde mental.