Fundamentos da Meditação Vipassana

A Meditação Vipassana

A Meditação Vipassana ou da Plena Atenção objetiva ver as coisas que ocorrem na nossa mente como elas na realidade são, fazendo-nos entender os fatores do sofrimento, em vez de tentar suprimi-los ou evitá-los, para assim encontrarmos a verdadeira felicidade. Um número cada vez maior de pessoas busca na meditação uma forma de encontrar o equilíbrio mental e emocional tão necessário a uma melhor qualidade de vida, indispensável a todo ser humano.

“Paz e felicidade”. Essas são questões fundamentais da existência humana. Isto é tudo que estamos buscando. Geralmente isso é um pouco difícil de ser visto porque cobrimos essas metas básicas com camadas de objetivos superficiais. Queremos comida, dinheiro, sexo, posse e respeito. Sempre dizemos a nós mesmos que a ideia de ‘felicidade’ é muito abstrata: ‘olha, eu sou bem prático. Apenas me dê dinheiro e eu comprarei toda a felicidade que preciso’. Infelizmente, essa atitude não funciona. Examine cada um desses objetivos e verá que são superficiais.

O que é felicidade? Para a maioria de nós, a felicidade perfeita significa obter tudo o que queremos, controlar tudo, ser um César, fazer com que o mundo inteiro dance de acordo com a nossa música. Mas isso não funciona assim. Dê uma olhada na história e veja as pessoas que no passado tiveram poder absoluto. Elas não foram pessoas felizes. Com toda certeza não viveram em paz consigo mesmas. Por quê? Porque elas queriam controlar o mundo de maneira total e absoluta e não conseguiram. Queriam controlar todas as pessoas, mas sempre existiam aquelas que se recusavam a ser controladas. Eles não podiam controlar as estrelas. Ainda ficavam doentes. Ainda morriam.

Você nunca terá tudo o que quer. É impossível. Felizmente existe uma opção. Você pode aprender a observar sua mente, dar um passo para fora desse ciclo interminável de desejo e aversão. Pode aprender a não querer o que deseja, reconhecer seus desejos sem deixar-se controlar por eles. Isto não significa que vá deitar na rua e convidar todo mundo a passar por cima de você. Significa que continua levando uma vida normal, mas a partir de uma nova perspectiva. Faz as coisas que devem ser feitas, mas estará livre de ser dirigido por seus desejos obsessivos e compulsivos.

Ninguém pode fazer mais por você que sua própria mente purificada – nem os pais, nem parentes, nem amigos, ninguém. Uma mente bem disciplinada traz felicidade. A meditação tem por objetivo a purificação da mente. Limpa o processo do pensamento daquilo que podemos chamar de irritantes psíquicos, coisas como a cobiça, ódio e ciúmes, coisas que o mantêm acorrentado a prisões emocionais. Conduz a mente a um estado de tranquilidade e conscientização, um estado de concentração e visão interior”.

“A dificuldade é que não temos consciência quando uma impureza surge”. Ela surge profundamente na mente inconsciente e, quando chega ao nível consciente, já ganhou tanta força que toma conta de nós sem que possamos observá-la.
Entretanto, alguém que atingiu a verdade última encontrou uma solução real. Descobriu que sempre que uma impureza surge na mente, duas coisas começam a acontecer simultaneamente no nível físico. Uma é que a respiração perde o seu ritmo normal. Começamos a respirar mais forte, sempre que a negatividade surge na mente. Isso é fácil de se observar.

Num nível mais sutil, uma reação bioquímica começa no corpo, resultando numa sensação. Toda impureza irá gerar alguma sensação no corpo. Isso oferece uma solução prática. Uma pessoa comum não pode observar impurezas abstratas da mente – medo, raiva ou paixão abstratos. Mas com a prática e treinamento adequados, é muito fácil observar a respiração e as sensações corporais, ambas diretamente relacionadas às impurezas mentais.

Agora com o treinamento, podemos ver o outro lado da moeda. Podemos tomar consciência da respiração e também do que acontece dentro de nós. O que quer que seja, respiração ou sensação, aprendemos a simplesmente observá-la sem perder o equilíbrio mental. Paramos de reagir e de multiplicar o nosso sofrimento. Ao contrário, deixamos as impurezas se manifestarem e desaparecerem.

Quanto mais praticamos essa técnica, mais rapidamente as negatividades desaparecerão. Pouco a pouco a mente tornar-se-á livre de impurezas, tornar-se-á pura. Uma mente pura é sempre cheia de amor – amor desinteressado por todos os outros; cheia de compaixão pelas falhas e sofrimentos dos outros; cheia de alegria pelo seu sucesso e felicidade; cheia de equanimidade diante de qualquer situação.

Quando alguém atinge esse estágio, todo o seu padrão de vida muda. Não é mais possível fazer ou falar qualquer coisa que perturbe a paz e a alegria dos outros. Em vez disso, uma mente equilibrada não apenas torna-se pacífica, mas a atmosfera que cerca tal pessoa também se tornará permeada de paz e harmonia, e isso influenciará e ajudará a outros também.

Aprendendo a permanecer equilibrado diante de todas essas coisas que se experimentam dentro de si, desenvolve-se o desapego também a tudo o que se encontra nas situações exteriores. No entanto, esse desapego não é escapismo ou indiferença aos problemas do mundo. Aqueles que praticam Vipassana regularmente tornam-se mais sensíveis ao sofrimento dos outros e fazem seu máximo para aliviar tal sofrimento em tudo que podem – não com agitação, mas com a mente cheia de amor, compaixão e equanimidade. Aprendem a “santa indiferença” – como estar totalmente compromissados, totalmente envolvidos em ajudar os outros, enquanto, ao mesmo tempo, mantêm o equilíbrio mental. Dessa forma, permanecem pacíficos e felizes enquanto trabalham para a paz e a felicidade dos outros”.

No ocidente, esta técnica milenar da tradição budista ficou mais conhecida a partir de 1979, quando começou a ser utilizada em curso não religioso de redução de stress criado por Jon Kabat-zinn, professor da Escola Médica da Universidade de Massachussets. Um estudo realizado por ele em colaboração com o doutor Richard Davidson da Universidade de Wisconsin demonstrou que a prática da meditação da Plena Atenção fortalece o sistema imunológico e alivia sintomas de pacientes de qualquer tipo de enfermidade crônica. Os pacientes afirmaram se sentir com mais energia, mais tranquilos e mais capazes para realizar tarefas. Concluiu-se que três horas de prática semanal podem modificar os padrões cerebrais, de uma resposta mais emocionada para outra mais serena.

Os benefícios desta prática foram relacionados em vários estudos, desde a melhora de sintomas da esclerose múltipla, à depressão. Mas agora, um recente estudo feito pela Harvard Medical School, nos EUA, demonstra, pela primeira vez, alguns dos efeitos positivos provocados por esta meditação no cérebro. Apenas oito semanas de meditação, praticantes adultos iniciantes fizeram ressonâncias magnéticas que demonstraram um aumento na concentração de massa cinzenta em quatro regiões do cérebro. Isto pode indicar, segundo os pesquisadores, uma melhora em regiões relativas à aprendizagem, memória, emoções e estresse.

Outras experiências demonstram que os benefícios da meditação também se estendem a outros universos bem distintos. Como exemplo, o complexo penitenciário de Tihar em Nova Délhi, com cerca de 13.000 detentos, onde um programa de prática de meditação Vipassana ajuda os presos a se recuperarem e a cultivarem a vida espiritual. Nos Estados Unidos, a Insight Meditation de Charlottesville ensina às mulheres da prisão Blue Ridge, de segurança máxima na Virginia, visando o controle dos impulsos, tendo ainda como resultado, uma melhoria no autoconhecimento das internas. No Brasil, a professora de ioga Renata Mendes comanda um programa para meninas em um dos centros socioeducativos da Fundação Casa em São Paulo. Através da aplicação desta técnica, foi possível observar uma visível diminuição da agressividade entre as detentas.

“Essa experiência direta de nossa realidade interior, essa técnica de auto-observação é chamada de meditação “Vipassana”. Na língua da Índia, nos tempos do Buda, passana significava ver no sentido comum, com os olhos abertos; mas Vipassana é observar as coisas como realmente são, e não como parecem ser. A realidade aparente tem de ser penetrada, até alcançarmos a verdade última de toda a estrutura física e mental. Quando experimentamos essa verdade, então, aprendemos a parar de reagir cegamente, de criar impurezas e, naturalmente, as antigas impurezas serão gradualmente erradicadas. Tornamo-nos libertos de todo o sofrimento e experimentamos a verdadeira felicidade.

Apesar de a Vipassana ter sido desenvolvida como técnica de meditação pelo Buda, sua prática não se limita aos budistas e, de nenhum modo, trata-se de algo parecido a uma conversão. A técnica parte dos princípios básicos de que todos os seres humanos compartilham os mesmos problemas e que a técnica capaz de erradicar esses problemas terá uma aplicação universal. Os benefícios produzidos pela meditação Vipassana têm sido experimentados por pessoas das mais diversas crenças religiosas, sem que tenham tido qualquer conflito com a fé que professam.

Assim, o significado literal de Vipassana é ver as coisas claramente, não apenas nosso próprio processo mente-corpo, apesar disto ser básico, mas também ver tudo claramente, outras pessoas, relacionamentos, situações. A forma é viver sem avidez, sem ódio, sem ilusão; viver com consciência, em alerta, com equanimidade e com amor”.

“Na medida em que nossa visão clara se aprofunda, vemos mais nitidamente os resultados de nossas ações – a paz promovida pela boa intenção, sinceridade e clareza mental; e as dificuldades criadas pela confusão e pelo descuido”. É esta sensitividade maior, principalmente quando observamos os problemas que causamos para nós mesmos e para os outros, que nos inspira a querer viver mais sabiamente. Para a paz mental verdadeira é indispensável que a meditação formal seja combinada com um compromisso com a responsabilidade e o cuidado consigo e com o outro.

Cada vez mais centrada na plena atenção, a mente se torna livre para poder responder de forma habilidosa ao momento presente, e uma harmonia surge na vida. Esta é a forma da meditação fazer “obra social” – trazendo consciência para a sua vida, ela traz a paz para o mundo. “Quando você é capaz de se manter pacífico diante da grande variedade de sentimentos que surgem na consciência, então, você é capaz de viver de forma mais aberta para o mundo e com você mesmo como você é.”

Mantendo a prática

“Seguem algumas dicas úteis para auxiliar sua prática:

  • Medite diariamente, mesmo que seja por um curto período. Incondicionalmente dedique esse período de calma – isto é um presente para a alma!
  • Algumas vezes durante o dia, dê uma pausa. Estabeleça contato com seu corpo e respiração, sentindo a vitalidade que está Aqui. Faça cada vez mais pausas – o espaço de uma pausa permite que você chegue ao seu coração e consciência;
  • […] Lembre-se de que, como você, todos querem ser felizes e ninguém quer sofrer;
  • Pratique regularmente com um grupo amigo;
  • […] Inscreva-se para um dia de retiro – de um dia, de um fim de semana ou mais. A experiência vai aprofundar a sua prática e nutrir o seu despertar espiritual;
  • Se você deixar de praticar por um dia, uma semana ou um mês, basta começar de novo;
  • Se você precisar de orientação, peça ajuda a um praticante experiente ou professor;
  • Não julgue a sua prática – ao contrário, aceite seus desdobramentos e confie em sua capacidade de despertar e se libertar;
  • Viva com reverência pela vida – comprometendo-se a não causar mal, a realmente ver o que está a sua volta, a honrar e servir o sagrado em todos os seres”.

Você está viajando por um caminho que levou milhões de pessoas à clareza, à paz e à profunda realização durante milhares de anos. Que o seu despertar o apoie e o inspire. E que a sinceridade de sua prática cure e liberte seu espírito.

Texto extraído das seguintes publicações:

1- Meditação Vipassana, Equipe Editorial da SVM, Sociedade Vipassana de Meditação, Revista Terceiro Milênio, Brasília, pag.22, março/2011.
2- Brach, Tara, Como Meditar, tradução da Equipe de Tradutores da Sociedade Vipassana de Meditação, 2011.
3- Gunaratana, Bhante Henepola, A Meditação da Plena Atenção, tradução Edições Casa de Dharma, 2005.
4- Sumedho, Ajahn, Introdução à Meditação da Visão Clara, tradução de Ricardo Sasaki, Edições Nalanda, 2ª impressão.
5- A arte de Viver: Meditação Vipassana, S.N. Goenka, (em:
6- http://www.dharmma.org/pt/art.shtml), acessado em 26-06-2008.
7- Goldstein, Joseph, A Experiência do Insight, São Paulo, Editora Roca, 1995.

Sites sobre Meditação

Insight Meditation Society
Acesso ao Insight
BuddhaNet
Casa de Dharma
Mind and Life Institute
Wisebrain – Institute of neuroscience and contemplative wisdom
Inquiring Mind
Centro de Estudos Budistas Nalanda
Dharma Net
Bhavana Society

Sugestões de livros sobre Meditação

  • Meditação e Visão Interior, Joseph Goldstein
  • Dharma, Joseph Goldstein
  • Buscando a Essência da Sabedoria, Joseph Goldstein & Jack Kornfield
  • A Experiência do Insight, Joseph Goldstein
  • Respire! Você Está Vivo, Thich Nhat Hanh
  • Transformações na Consciência, Thich Nhat Hanh
  • A Travessia Budista da Vida e da Morte, Arthur Shaker
  • A Alegria de Viver, Yongey Mingyr Rinpoche
  • Em Busca de uma Psicologia do Despertar, John Welwood
  • Transformação e Cura, Thich Nhat Hanh
  • Breath by Breath, Rosenberg
  • Eight Mindful Steps to Happiness, Bhante Henepola Gunaratana
  • Satipattãna The Direct Path To Realization, Anãlayo
  • Mindfulness With Breathing, Buddhadãsa, Silkworm Books
  • Being Dharma, Ajahn Chah