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Vipassana no Mundo

In: YOSHINORI, Takeuchi (org.). A Espiritualidade Budista (Vol. II). – São Paulo, Ed. Perspectiva, 2007.

O  texto de Gil Fronsdal faz, inicialmente, uma síntese histórica do interesse pelo budismo Theravada no Ocidente. Destaca, em seguida, a ênfase na meditação Vipassana e trata também, de forma resumida, das diferenças entre as comunidades monásticas e as leigas, dos desenvolvimentos mais recentes do Theravada e dos prováveis rumos que virá a tomar esta espiritualidade fora do Sudeste Asiático.

Espiritualidade no Ocidente

Na análise do interesse do Ocidente pelo budismo Theravada podem ser destacados dois períodos ou “pontos altos”: o primeiro, de 1870 a 1912 e o segundo, de 1970 até os dias atuais.

No primeiro período, o interesse surge nos EUA e na Europa principalmente entre pessoas das classes média e alta, com destaque para dois eventos: a publicação do livro de Sir Edwin Arnold (1832-1904), A Luz da Ásia e a presença de budistas, em 1893, no Parlamento Mundial das Religiões, em Chicago. Passa a existir, então, um forte interesse acadêmico no Ocidente pelo budismo, com ênfase nas escrituras do Cânone Pali, que é considerado o “budismo original”. É a tradução deste Cânone para o inglês que vai dar início à maior difusão da tradição Theravada nos países ocidentais. Fronsdal destaca que as traduções vão proporcionar reformas modernizadoras também no budismo do Sudeste Asiático, na medida em que naquela região o Cânone Pali será traduzido para as línguas modernas. Há um ressurgimento do budismo no Sri Lanka que é acompanhado por um evidente crescimento do interesse por parte dos ocidentais.

Em 25 de maio de 1880, o coronel Henry Steele Alcott e Madame Blavatsky, em cerimônia pública no Sri Lanka, declaram-se formalmente budistas. Ambos serão figuras de proa na difusão dos ensinamentos do budismo, ensinamentos estes que alcançam destaque também através da Sociedade Teosófica. Na Alemanha, o filósofo Schopenhauer (1788-1860) foi um dos responsáveis pela valorização do budismo naquele país na medida em que o tinha em grande consideração.

No segundo período, que tem início em 1970, o crescimento do budismo Theravada é marcado por dois fatores:
a) o crescimento do interesse ocidental pela prática da meditação nesta tradição;
b) o aumento da imigração de pessoas do Sudeste Asiático para os Estados Unidos e a Inglaterra (e, neste caso, a freqüência aos templos terá características marcadamente étnicas).

No caso do interesse ocidental, houve uma influência muito grande de pessoas que viajaram para o Vietnã, para a Tailândia, etc., como os americanos do Peace Corps e também muitos jovens buscando novas alternativas de vida. Muitos deles, quando retornavam ao Ocidente, passavam a difundir os ensinamentos de meditação que haviam aprendido na Ásia. Apesar de serem muito variadas as técnicas de meditação na tradição Theravada, a que se tornou dominante tanto na Europa quanto nos Estados Unidos foi a Vipassana que começava a alcançar também grande popularidade no Sudeste Asiático.

Diferente de épocas anteriores, começava a surgir um significativo crescimento do número de “mestres leigos”.
Mahasi Sayadaw, também chamado de U Sobhana (1904-1982), liderou um centro de meditação organizado por leigos em Rangun e ensinou um estilo de meditação Vipassana simples e sistemática, com alto nível de concentração, a “concentração momentânea” (khanika samadhi).

A partir de 1972, os ocidentais ex-alunos do centro de Rangun, mas também de Bodh Gaya, na Índia, onde haviam estudado com Anagarika Munindra (ele próprio ex-aluno de Mahasi), começaram a ensinar meditação Vipassana no Ocidente, destacando-se Joseph Goldstein e Jack Kornfield. Ambos, junto com Sharon Salzberg e Jacqueline Mandell, fundaram em 1976 a Insight Meditation Society (IMS). Em 1987, Kornfield, junto com mais três mestres ocidentais, funda um centro para monjas na Califórnia. Calcula-se que, entre 1964 e 1994, cerca de cem mil ocidentais participaram de retiros de meditação Vipassana. U Ba Khin (1899-1971), de Mianmar, também exercerá grande influência no Ocidente com uma prática de meditação que enfatiza a concentração através da atenção às sensações corporais. Tanto a sua prática quanto a de Mahasi exigem retiros com muitas horas de meditação. O indiano Satya Narayan Goenka difundirá largamente a prática de meditação de U Ba Khin no Ocidente.

Uma constatação importante é a de que os praticantes da meditação Vipassana nos países ocidentais passaram a se desvincular do budismo como doutrina e a prática foi então seguindo os caminhos do não-sectarismo. 

A Sangha monástica no Ocidente

O budismo Theravada no Ocidente tem oscilado entre a orientação leiga e um certo interesse no monasticismo. Na Inglaterra, floresceram algumas organizações monásticas, inspiradas nos monges da floresta da Tailândia, discípulos de Achaan Chah (entre eles o ocidental Achaan Sumedho, fundador de várias comunidades monásticas inglesas).

No que se refere à participação das mulheres, no Sudeste Asiático ela ainda é muito limitada. Mesmo no Ocidente, como monjas, o crescimento do seu número é pouco significativo, destacando-se mais aquelas que estão presentes nos movimentos leigos.

De um modo geral, é possível afirmar que a tradição Theravada nos países ocidentais está vinculada de maneira predominante à meditação Vipassana em comunidades leigas. Esta maior presença de mestres leigos é um dado característico importante.

Desenvolvimentos recentes no Ocidente

Os grupos de meditação Vipassana têm crescido nos países ocidentais e as questões éticas têm assumido um papel relevante. De acordo com Fronsdal: “Os ensinamentos dos professores de meditação Vipassana no Ocidente tendem a ser menos dualistas que os da tradição Theravada no Sudeste Asiático, enfatizando não a renúncia ao mundo, mas o envolvimento com o mundo e a liberdade no mundo.”

O budismo Theravada no Ocidente têm sido modificado tanto por questões que dizem respeito à democracia ao feminismo, ao igualitarismo, quanto pelo contato com outras tradições budistas, especialmente com o budismo Tibetano e com o Zen.

Mas ainda não está claro se os rumos do Theravada vão ser os de um transplante da tradição asiática para o Ocidente ou se aqui novas tradições vão evoluir à sua maneira. É possível, também, que ambas as situações se mantenham e que tanto os mestres quanto as comunidades sigam um ou outro caminho de acordo com suas próprias escolhas.

O impacto da Espiritualidade Theravada no Ocidente

A influência mais forte do budismo Theravada no Ocidente tem sido nos Estados Unidos onde a prática da meditação tem sido associada também a procedimentos médicos. Neste aspecto, destaca-se o trabalho de Jon Kabat-Zinn, do Centro Médico da Universidade de Massachusetts. Kabat-Zinn foi aluno da Insight Meditation Society e depois passou a aplicar o método fora do contexto budista, para uso de seus pacientes. Este trabalhou passou a ser muito difundido em outras clínicas nos EUA. O próprio Kabat-Zinn treinou muitos profissionais da saúde para o uso da atenção plena, levando esta prática também às prisões e às comunidades carentes.

Muitos psicoterapeutas americanos também aderiram à meditação Vipassana principalmente os que trabalham com Psicologia Transpessoal. Há uma grande concentração de psicoterapeutas entre os freqüentadores de retiros de meditação Vipassana o que leva alguns mestres a refletir sobre a influência dos conceitos da psicologia ocidental no budismo Theravada transplantado da Ásia para os países do Ocidente.

É justamente nestas áreas da medicina, da terapia e do serviço social que a tradição Theravada tem exercido influência.

Anteriormente, em torno de 1950 e 1960, o budismo Zen havia crescido de maneira significativa entre os intelectuais e também no mundo artístico, mas, como conclui Fronsdal, “as meditações da atenção e o treino sistemático da atenção plena têm conquistado um lugar na vida americana fora de todo contexto budista formal".

A pesquisa sobre meditação aumentou muito nas últimas três décadas, especialmente nos Estados Unidos. Desde o início dos anos de 1970, mais de mil estudos sobre meditação feitos em laboratório foram citados em revistas científicas, livros e teses acadêmicas só em língua inglesa. Esses testes feitos através de encefalogramas, tomografias cerebrais, dosagem de hormônios e inúmeros outros métodos de pesquisa científica oferecem provas incontestáveis dos benefícios da meditação.

Análises detalhadas mostram que a meditação traz importantes benefícios ao trato cardiovascular, ao cérebro e ao metabolismo, além de provocar alterações benéficas no comportamento, na experiência interior, na percepção e na imagem que temos de nós mesmos. Esses estudos, diz Michael Murphy, co-fundador do Instituto Esalen, na California, “estão melhorando gradualmente a compreensão científica que temos da meditação, de maneira a complementar as idéias contidas na literatura contemplativa tradicional”. Todos parecem se beneficiar com esse avanço independente de gênero, raça ou tipo de sofrimento.

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