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Como se livrar de suas histórias pessoais

Bob Stahl e Steve Flowers – 20 de outubro de 2016

Uma prática eficaz de Plena Atenção é trabalhar com suas histórias pessoais para evitar que viva tão confinado em si mesmo a ponto de perder os momentos insubstituíveis que estão acontecendo bem à sua frente.

Sentir-se uma pessoa sem valor significa sofrer. Fica parecendo que você é alguém defeituoso que deve esconder sua imperfeição dos outros para evitar o risco de ser excluído. Mas esconder-se, fingir e manter-se afastado tendem a fazer você se sentir alienado e, então, interpretar esses sentimentos como prova de que é mesmo uma pessoa imperfeita. Esse é um círculo vicioso de dúvidas e autojulgamentos que separam você dos outros e o impedem de se sentir alguém inteiro e completo. Embora possa estar preso neste autoconceito, ele é muito mais errático e maleável do que você imagina. Mindfulness e a autocompaixão permitem que você veja e reconheça a delicadeza e a dor contidas na sua história sem cair na ilusão de que é a história que define quem você é. Ela até pode ser a “sua” história, mas não é você.

Exercício: A-W-A-R-E

Uma maneira eficaz de trabalhar com nossas histórias internas está resumida na sigla AWARE (CONSCIENTE, em inglês), formada pelas iniciais de cinco palavras (allow, witness, acknowledge, release, ease up) que significam permitir, testemunhar, reconhecer, liberar e relaxar:

AWARE           (= Consciente)
A Allow           (=Permitir)
W Witness         (=Testemunhar)
A Acknowlegde (=Reconhecer)
R Release           (=Liberar)
E Ease up           (=Relaxar)

Permitir que todos os pensamentos e sentimentos apareçam e desapareçam como quiserem.

Isso atenuará suas reações a qualquer coisa que surja em sua mente quando você estiver no espaço da atenção consciente. Dar-se permissão é uma atitude gentil que contém traços de curiosidade, pois ajuda a investigar mais profundamente suas histórias e a aprender com elas ao invés de continuar fascinado por elas ou tentar bloqueá-las, o que só iria deixá-lo ainda mais aprisionado. Permitindo-se vivenciar o que acontece em sua mente dessa perspectiva, você pode aprender a aceitar todos os pensamentos como veículos para a introspecção, e não como comprovação de qualquer coisa, inclusive de alguma inerente indignidade ou inadequação. Essa permissão o capacita a reconhecer que um pensamento é apenas um pensamento, quer você goste disso ou não.

Testemunhar a narrativa com a qual você construiu o seu senso de eu.

Às vezes, você é a parte que atuou: “Eu fiz…” “Eu deveria…” “Eu não deveria…” “Bem que eu gostaria de…” Outras vezes, você foi o objeto ou o alvo da atuação de alguém: “Fulano fez isto ou aquilo comigo.” “Todo mundo me ignorou”. “As pessoas sempre…” “Ninguém nunca…” Qualquer que seja o caso, os diálogos internos o atormentam continuamente, até que você deixe de permitir, passivamente, que eles aconteçam. Ao se colocar num estado de Atenção Consciente, você pode testemunhar as formas habituais como sua mente cria um eu com base em narrativas, mas sem se identificar com elas. Esse papel de testemunha envolve curiosidade e ausência de julgamento. O observador não se apega a nada nem evita nada. Com esta ferramenta, você pode olhar mais profundamente até os eventos muito dolorosos mantendo o coração inteiramente aberto. Assim como um médico num pronto-socorro não vacila em olhar diretamente um ferimento em busca do fragmento profundamente alojado e o remove, você pode descobrir em seu interior coisas que já não precisa carregar ou das quais já não precisa se culpar.

Quando você usa a permissão, o testemunho e o reconhecimento para observar como funciona o “contador de histórias” interno, pode finalmente parar de se identificar com o eu criado pelas historinhas. Você não precisa acreditar em tudo que lhe vem à mente. Por que continuar aprisionado em si mesmo quando a porta está totalmente aberta? Deixe que tudo passe e se vá. Deixe que tudo simplesmente seja.

Reconhecer o que acontece nas histórias que se conta.

Pratique ficar sentado em silêncio observando o que surge. Observe as sensações físicas, os pensamentos e as emoções que você experimenta, à medida que eles vêm e vão. Use frases simples para nomear a experiência, como “me preocupando”, “planejando”, “pensando” e assim por diante. Há algum personagem que você esteja tentando criar ou assassinar? Note elementos repetitivos ou habituais que você usa para criar um “eu” baseado nessas narrativas internas. Existe um tema? O contador de histórias é cruel ou gentil, brilhante ou cego? Existem julgamentos que lhe são familiares? Há desejos recorrentes? Vá identificando tudo que observar.

Liberar os autoconceitos que você fabricou com essas velhas histórias e ideias.

Desidentifique-se de suas habituais e familiares formas de pensar sobre si mesmo. Fama, vergonha, perda, ganho, prazer e dor são experiências transitórias, não os atributos do self. Quando você usa a permissão, o testemunho e o reconhecimento para observar como funciona o “contador de histórias” interno, pode finalmente parar de se identificar com o “eu” criado pelas historinhas. Você não precisa acreditar em tudo o que lhe vem à mente. Por que continuar aprisionado em si mesmo quando a porta está totalmente aberta? Deixe que tudo passe e se vá. Deixe que tudo simplesmente seja.

Relaxar e sair desse transe de que você não tem valor.

Quando você está preso num autoconceito de inadequação e falta de valor, grande parte de seu diálogo interno envolve comentários sobre como está se saindo ou sobre sua aparência, e boa parte do diálogo interno gira em torno de comparações com os outros e julgamentos sobre si mesmo. Isso não é útil nem hábil, e nunca é prazeroso. Nem tudo que acontece no mundo tem a ver com a sua pessoa! Além disso, quem fica imerso em pensamentos sobre si mesmo acaba perdendo o que realmente acontece em cada momento insubstituível de sua vida.

Permitir, testemunhar, reconhecer, liberar e relaxar são habilidades básicas na prática da meditação e também lhe serão muito úteis em vários momentos da vida — no trabalho, em casa, com amigos e em tudo o que fizer, especialmente nos momentos em que perceber seu diálogo interno ganhando um tom crítico e cruel. A prática AWARE pode vir a ser um modo de vida que ajudará você a se tornar um pouco mais livre a cada vez que a praticar.

Este artigo foi adaptado do livro Living with Your Heart Wide Open, de Bob Stahl e Steve Flower.