Publicado em

Como evitar a armadilha do autoaperfeiçoamento

Reconheça o crítico interno que não quer nem ouvir falar de compaixão
Bob Stahl
19 de abril, 2016

No trabalho de cura baseado na autocompaixão, é importante evitar a armadilha da busca do autoaperfeiçoamento. Quando você tem um sentimento generalizado de invalidação, de pouco valia, isso pode ser complicado. A identidade de uma pessoa que se sente sem valor é formada pela culpa atribuída a si mesmo e por um dilúvio de autojulgamentos produzidos por um crítico interno que não quer nem ouvir falar de autocompaixão. Esse crítico está muito mais interessado em fazer esforços masoquistas voltados para projetos de autoaperfeiçoamento – com os quais nunca está satisfeito! Mas isso só faz com que você fique cada vez mais enredado no sentimento de deficiência, por várias razões, sendo que a primeira delas é a própria ideia de que há um self defeituoso e sem valor que precisa ser melhorado.

É importante procurar uma terapia e atividades que promovam a saúde quando você precisar de suporte. Às vezes, poderá ser tomado pela crença de que pode consertar seu self desvalorizado com a ajuda de mais seminários, novas terapias, uma dieta melhor ou um programa de exercícios. Em muitos aspectos, isso é o mesmo que estar sempre em busca de mais dinheiro ou mais coisas. É apenas outra variação do padrão de estar eternamente querendo algo mais ou algo melhor. Veja como funciona a armadilha: ao estabelecer a meta de se tornar um indivíduo melhor, isso convoca o desejo de alcançar algo. O desejo convoca o esforço. O esforço ativa o julgamento. E o julgamento torna-se um modo de vida que traz uma orientação crítica com relação a tudo: “Oh, eu gosto disso! Ah, eu não gosto disso! Oh, isso é bom! Oh, isso é ruim!” A crítica nunca para, e, enquanto a mente dedicar-se a isso, ela não estará no aqui e agora; estará preocupada com chegar a algum outro lugar. Esse desejo de ser alguém melhor pode ocupar toda a sua vida, e nunca ser preenchido.

Uma mente que está eternamente se esforçando para alcançar um lugar melhor ou uma melhor situação cria sofrimento ao fugir do momento presente, único lugar em que podemos experimentar amor, paz ou felicidade.

Lembre-se: este momento é onde você está vivendo sua vida, e o importante é estar aqui a fim de realmente viver no aqui e agora. Não há nenhum outro momento onde se possa estar vivendo. Quando você está em algum lugar diferente do agora, pode perder as experiências mais preciosas da sua vida. Isto pode ser semelhante a ficar procurando sua câmera para preservar uma experiência que acaba perdendo porque estava procurando a câmera… Uma mente lançada em direção ao futuro está focada em algum objetivo, e, mesmo que esse objetivo seja atingido, a mente esforçada continuará preocupada em comparar a nova situação com o passado para ver se algo melhorou. Isso faz com que você permaneça eternamente preocupado com passado e futuro, raramente (ou nunca) vivendo, de fato, no aqui e agora.

Viver no momento presente não significa que você descarte seus objetivos, quer seja ter um carro já pago, mudar-se com a família para uma casa melhor ou para um bairro mais seguro, ou perder peso. Significa permanecer orientado para o aqui e agora enquanto segue trabalhando em direção às suas aspirações.

A mente julgadora sempre pode encontrar algo que não esteja bem, especialmente quando observa as coisas a partir da perspectiva de um self nebuloso. Em geral, fazemos julgamentos a nosso respeito utilizando como padrão o que vemos à nossa volta e comparando-nos com outros. Mas se você considerar quantos bilhões de pessoas existem neste planeta, verá que se trata de uma proposta destinada ao fracasso: sempre haverá alguém mais magro que você, mais apto, mais agradável, mais realizado, mais atraente, mais popular — o que quer que seja.

Perceber o que você faz com sua mente e como ela gera as comparações pode ajudá-lo a ver quanto sofrimento é causado por esse fluxo interminável de julgamentos, e também entender quanta violência está contida na autocrítica. Você pode odiar sua barriguinha e querer se livrar dela, ou pode desprezar o modo como se intimida em determinada situação e deixa de dizer o que realmente pensa. Mas o único resultado de odiar e criticar suas coisas ou características é criar mais sofrimento. É como adotar uma estratégia militar baseada na ideia de que a guerra pode criar a paz — que, se você puder estraçalhar de uma vez por todas o self inadequado, ou talvez apenas ameaçá-lo com isso, finalmente se sentirá bem e terá paz. Essa forma de pensar só serve para fortalecer os circuitos neurológicos de sofrimento dentro do cérebro e para colorir seus pensamentos com narrativas sobre o que há de errado com você e sobre como precisa se aperfeiçoar.

À medida que você avança na prática de Mindfulness e na compaixão, pode começar a perceber que o contentamento é a maior das riquezas, e que não há dinheiro ou coisas que possam comprá-lo. O maior dos tesouros é estar contente com quem você é. O caminho para a paz nunca é através da guerra, e o caminho para a felicidade nunca é através do ódio. A paz é o caminho para a paz, e a felicidade vem da felicidade. Se você quer que a compaixão cresça em sua vida, pratique compaixão. Se você quer que a crítica cresça em sua vida, pratique a crítica. É realmente simples assim: sua atitude é a água que alimenta sua vida. Você pode promover sentimentos de inadequação e menos valia afogando-se em atribuições de culpas e críticas a si mesmo, ou promover sentimentos de felicidade e bem-estar inundando-se de autocompaixão.

A qualidade da sua atitude é influenciada por muitas coisas, mas principalmente pelo seu estado de espírito e por sua orientação diante da vida. Se tiver uma orientação crítica, encontrará número ilimitado de coisas para criticar e poderá ficar emaranhado na armadilha do autoaperfeiçoamento durante grande parte de sua existência. Se tiver uma orientação compassiva, encontrará muitas oportunidades para sentir compaixão e poderá descobrir liberdade e felicidade em sua vida neste exato instante.

A atitude de autocompaixão pode se ampliar mesmo enquanto você estiver cuidando de suas dores e mágoas, ou enquanto reflete sobre erros que feriram você ou outras pessoas. A autocompaixão aumenta à medida que você pratica a autocompaixão, assim como uma pianista torna-se mais exímia ao praticar o piano. Pequenos erros como esquecer alguma coisa na loja, ou grandes erros, como esquecer seu aniversário de casamento, podem tornar-se oportunidades para crescer um pouco mais em autobondade e autocompaixão.

Sim, há lágrimas a chorar, bem como erros embaraçosos e escolhas às vezes vergonhosas cuja responsabilidade precisamos assumir. Mas, mesmo enquanto se sente abalado até os ossos por emoções difíceis que jorram através de você, é possível dar assistência ao seu coração ferido, fazendo contato com ele, reconhecendo a dor e praticando a autocompaixão. Dessa forma, é possível aprimorar os valores que você gostaria de cultivar internamente, mesmo enquanto dedica ao sofrimento uma atenção gentil, acolhedora. Chega uma hora em que o sofrimento diminui, assim como as lágrimas de uma criança desaparecem depois que alguém a embala e cantarola para ela por tempo suficiente. À medida que a dor vai cedendo, as feições da criança mudam, e surge aquela calma que vem depois da tempestade. Saiba que, para você também, chegará a hora em que terá chorado até a última lágrima e se sentirá envolvido por um aconchegante sentimento de paz. Esse é um dos maiores tesouros da prática de Mindfulness e da Autocompaixão.

Prática de Mindfulness: Meditação da Autocompaixão

A autocompaixão lhe permite acompanhar e aplacar suas próprias mágoas e dores e viver com o coração inteiramente aberto. No momento em que você abraça suas partes deserdadas e feridas, as cascas do seu velho self construído a partir de narrativas podem começar a cair.

Há vezes em que agimos de forma desastrosa e fazemos más escolhas que ferem os outros, e há vezes em que também somos feridos pelas ações de outros. Em vez de repelir os pensamentos e sentimentos sobre essas coisas, e em vez de tentar corrigir algo ou alguém, podemos simplesmente ficar com os pensamentos e sentimentos que chegam, olhá-los com curiosidade, reconhecê-los e deixar que sejam como são. À medida que você pratica a meditação da autocompaixão, a intenção é estar aberto a todos os pensamentos, emoções e sensações, deixando que todos os fluxos de percepção passem livremente através de você. É uma prática de estar consigo exatamente do jeito que você é.

Conceda-se pelo menos de vinte a trinta minutos para esta prática. Escolha um lugar onde se sinta seguro e à vontade. Se quiser, coloque objetos especiais em uma prateleira próxima para criar um clima reconfortante, ou acenda uma vela, ou ponha algumas flores. Saiba que está se dando um presente de amor.

  • Respire: Comece praticando a Plena Atenção da respiração por 10 minutos, retornando à respiração com um sentimento de autocompaixão cada vez que sua mente divagar. Apenas observe o ir e vir de seus pensamentos e emoções. Esteja presente…
  • Lembre-se e observe: Mantendo o contato com a respiração, lembre-se de uma emoção que tenha surgido em você durante os dez minutos de respiração consciente. Mas, escolha uma emoção com a qual possa lidar sem grande dificuldade – você não tem que escolher 10! Que tal 5 ou 6? Se nenhuma emoção se destacou, lembre-se simplesmente de alguma surgida durante uma experiência recente. Observe o que acontece no seu corpo enquanto você sente essa emoção, e reconheça as partes do corpo que são afetadas. Esteja aberto e presente para qualquer outra emoção que possa surgir. Talvez a vergonha lhe pareça uma corda enrolada à volta do peito, cada vez mais apertada e tornando difícil a respiração. Com que se parece a emoção que está sentindo? Ao ir mais fundo na emoção, você pode descobrir outros pensamentos e emoções — talvez ódio de si, que é sentido na barriga como algo que se agita, se contorce e dói. Continue prestando atenção. Sinta mais profundamente o que está acontecendo e esteja presente em seu corpo. Deixe que aconteça o que estiver acontecendo na mente e no corpo. Observe se surgem velhas e indesejáveis memórias que estavam enterradas. Se isso acontecer, deixe-as vir, e observe como seu corpo as sente.
  • Seja gentil consigo. Deixe que tudo aconteça nesse estado irrestrito de atenção; não bloqueie nada. Não deixe que o transe da falta de valor próprio devore seu coração. Fique perto da dor, com compaixão. É o coração despertado que permanece ao lado da dor e pode curá-la. Tudo está acontecendo bem aqui e agora, onde está o seu corpo. Fique com tudo o que você está sentindo e lembre-se de que esta prática é sobre oferecer-se compaixão e sentir essa compaixão. Não se trata de descobrir alguma coisa ou consertar algo ou livrar-se de algo. Lembre-se, tudo se resume a amar, incluindo o amor por você mesmo. Tudo se resume ao que você está fazendo neste momento. Use a respiração para permanecer ancorado no momento presente, deixando-a ir e vir.
  • Permita o ir e vir das emoções. Da mesma forma que você permite o livre ir e vir da respiração, permita que suas emoções apareçam e desapareçam livremente. Observe qualquer julgamento que surja à medida que você permite a passagem de emoções fortes ou indesejadas. Observe como os julgamentos afetam suas emoções, talvez bloqueando-as ou afastando-as, talvez invocando outras emoções. Dê as boas-vindas a todas as suas emoções e continue observando e reconhecendo os julgamentos, sem alimentá-los.
  • Permaneça com a compaixão. Mantenha uma atitude compassiva diante de quaisquer emoções que cheguem. Delicadamente, dê as boas-vindas a todas e acolha-as com brandura. Entregue-se aos braços da autocompaixão e esteja presente com o que estiver sentindo. Continue com esta prática e com as emoções pelo tempo que quiser.
  • Quando estiver pronto para encerrar esta prática, retorne à prática da Plena Atenção na respiração por 10 minutos.
  • Seja grato. Congratule-se por ter-se dado o presente desta prática, pelo tempo que dedicou ao cuidado de si.

Registre em seu diário o que lhe chegou durante esse tempo. Escreva sobre qualquer vínculo que tenha percebido entre as emoções: o desamparo trazendo medo, por exemplo, ou o medo evocando raiva. Escreva sobre todas as emoções que lhe vieram, observando se mudaram, e como mudaram, em função de sua atitude de aceitação e compaixão.

À medida que continuar a praticar a autocompaixão, poderá notar mais e mais coisas sobre o self criado por você a partir de todas aquelas velhas histórias: talvez tenha tentado ser uma pessoa especialmente boa para contrabalançar problemas em sua família; talvez tenha aprendido a ser generoso como forma de ganhar o valor que sentia que lhe faltava. A autocompaixão lhe permite estar ao lado das dores, da solidão e dos medos que estavam ocultos pelo self que você criou. No coração inteiramente aberto da autocompaixão, a criança ferida dentro de você vai começar a ser curada.