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Karma

Por Ajaan Thanissaro

 


“Karma é uma daquelas palavras que não traduzimos. O seu significado básico é bastante simples – ação – mas devido à importância que os ensinamentos do Buda atribuem ao papel da ação, a palavra karma em Sânscrito contém tantas implicações que a palavra ação em Português não consegue abarcar todo o seu conteúdo. É por essa razão que simplesmente absorvemos a palavra original como parte do nosso vocabulário.

Porém quando tentamos identificar todas as conotações que a palavra contém, agora que ela se incorporou à linguagem do dia a dia, nos damos conta que o seu verdadeiro significado não está claro. Aos olhos da maioria da pessoas, karma funciona como destino – má sorte, uma força inexplicável e imutável que surge do nosso passado, pela qual somos responsáveis, ainda que vagamente e que não temos forças para resistir. “Creio que deve ser o meu karma,” ouvi pessoas dizerem quando atingidas pela má sorte com tal intensidade que não viram outra alternativa senão aceitar com resignação. O fatalismo implícito nessa afirmação é uma das razões porque tantos de nós rejeitamos o conceito de karma, pois soa tal como o tipo de mito insensível que pode justificar praticamente qualquer tipo de sofrimento ou injustiça na sociedade: “Se ele é pobre, é devido ao seu karma.” “Se ela foi estuprada, é por causa do seu karma.” A partir daí é só um pequeno passo para dizer que ele ou ela merecem sofrer e dessa forma não merecem a nossa ajuda.

Esse entendimento incorreto vem do fato de que o conceito Budista de karma veio para o Ocidente ao mesmo tempo que conceitos não Budistas e dessa forma acabou herdando uma bagagem indevida. Apesar de muitos conceitos de karma na Ásia serem fatalistas, o conceito Budista original não era de forma alguma fatalista. Na verdade, se analisarmos com atenção as idéias originais do Budismo acerca de karma, veremos que elas dão ainda menos importância a mitos do passado que a maioria das pessoas no Ocidente.

No Budismo original, o karma não era linear. Outras escolas Hindus acreditavam que o karma operava como uma linha reta, com ações do passado influenciando o presente, e ações no presente influenciando o futuro. Como resultado, eles viam pouco espaço para a livre escolha. Os Budistas no entanto, viram que o karma opera através do processo de feedback, com o momento presente sendo determinado tanto por ações do passado como do presente, as ações do presente influenciam não somente o futuro mas também o presente. Essa constante abertura para a influência da ação no presente no processo causal torna possível a livre escolha. Essa liberdade está simbolizada na imagem que os Budistas usam para explicar o processo: a água corrente. Em certas ocasiões a torrente que flui do passado é tão forte que pouco pode ser feito exceto manter-se firme no lugar, porém existem também ocasiões em que a torrente é suficientemente fraca e pode ser desviada quase que para qualquer direção.

Dessa forma, ao invés de promover a resignação impotente, a noção de karma no Budismo original focava no potencial libertador daquilo que a mente está fazendo a cada momento. Quem você é – de onde você veio – não se compara em termos de importância àquilo que a mente está fazendo a cada momento. Quem você é – de onde você veio – não se compara em termos de importância aos motivos da mente para fazer aquilo que está fazendo agora. Mesmo que o passado possa ser responsável por muitas das desigualdades que vemos na vida, a nossa medida como seres humanos não é aquilo que a sorte nos deu pois essa sorte pode mudar a cada momento. A nossa medida se estabelece pela maneira como lidamos com a sorte que temos. Se você estiver sofrendo, você tenta evitar continuar com os hábitos mentais inábeis que farão com que esse feedback cármico em particular se mantenha. Se você vê que outras pessoas estão sofrendo, e você pode ajudá-las, você não foca no passado cármico delas mas na sua oportunidade cármica no presente. Algum dia você poderá se encontrar na mesma situação em que elas estão agora, assim, essa é a oportunidade para agir da forma como você gostaria que elas agissem com relação a você quando esse dia chegar.

Essa crença de que a dignidade de uma pessoa é medida não pelo seu passado mas pelas suas ações no presente foi frontalmente contrária à tradição Hindu de hierarquia baseada em castas e, explica porque no Budismo original existe tanto humor acerca da arrogância e da mitologia dos brâmanes. Tal como apontado pelo Buda, um brâmane podia ser uma pessoa superior não porque ele nascera de um ventre brâmane mas somente se ele agisse com verdadeiras intenções hábeis.

Sempre que lemos acerca dos ataques dos primeiros Budistas ao sistema de castas, excluindo as suas sugestões anti-racistas, eles parecem ser inapropriados. Mas não nos damos conta de que eles atingem bem no cerne dos nossos mitos acerca do nosso próprio passado; nossa obsessão em definir quem somos de acordo com nossas origens – nossa raça, herança étnica, sexo, referencial sócioeconomico, preferência sexual — nossas tribos modernas. Colocamos uma quantidade desproporcional de energia na criação e manutenção da mitologia da nossa tribo de modo que possamos nos orgulhar acerca da boa reputação da nossa tribo. Mesmo quando nos tornamos Budistas, a tribo tem prioridade. Nós exigimos um Budismo que honre os nossos mitos.

Do ponto de vista de karma no entanto, de onde viemos é karma antigo sobre o qual não temos controle. O que “somos” é na melhor hipótese um conceito nebuloso – e na pior hipótese prejudicial quando o utilizamos como desculpa para agir com motivos inábeis. O valor de uma tribo se encontra somente nas ações hábeis dos seus membros. Mesmo quando essas pessoas de bem pertencem à nossa tribo, o bom karma delas pertence a elas, não a nós. E, é lógico, toda tribo tem os seus membros ruins, o que significa que a mitologia da tribo é algo frágil. Apegar-se a algo frágil requer um grande investimento em termos de cobiça, raiva e delusão, conduzindo inevitavelmente a mais ações inábeis no futuro.

Dessa forma os ensinamentos Budistas acerca de karma, longe de serem uma relíquia esquisita do passado, são um desafio direto a uma crença básica – e um defeito básico – na nossa cultura. Somente quando abandonamos nossa obsessão em encontrar orgulho no nosso passado tribal e podemos na verdade sentir orgulho dos motivos que estão por detrás das nossas ações no presente, podemos dizer que a palavra karma, no seu sentido Budista, recuperou toda sua bagagem. E quando abrimos a bagagem nos damos conta de que ela nos trouxe um presente: um presente que damos a nós mesmos, e uns aos outros quando deixamos de lado nossos mitos sobre quem somos e podemos ao invés disso sermos honestos acerca do que estamos fazendo com cada momento – ao mesmo tempo que fazemos o esforço para agir da maneira correta.”

FONTE: http://www.acessoaoinsight.net/arquivo_textos_theravada/karma.php

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A Estratégia do Não Eu

urgir a tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero naquele que nela se agarre. Mas vocês conseguem ver alguma doutrina do eu como essa bhikkhus?”
“Não venerável senhor”
“…Eu também não consigo…Bhikkhus, o que vocês pensam? Se as pessoas levassem embora a grama, gravetos, galhos e folhas deste bosque de Jeta ou se os queimassem, ou fizessem com eles o que desejassem, vocês pensariam: ‘As pessoas estão nos levando ou estão nos queimando, ou estão fazendo conosco o que desejam?’
“Não, venerável senhor. Porque não? Porque isso não é nem nosso eu, nem pertence ao nosso eu”.
“Da mesma forma, bhikkhus, tudo aquilo que não é seu, abandonem-lo. Ao abandoná-lo, isso irá conduzir ao seu bem-estar e felicidade por muito tempo. E o que, bhikkhus, não é seu? A forma material não é sua … A sensação não é sua … A percepção não é sua … As formações volitivas não são suas … A consciência não é sua, abandonem-la. Ao abandoná-la, isso irá conduzir ao seu bem-estar e felicidade por muito tempo. [MN 22]

O Ven. Sariputta disse: “ Amigos, em terras estrangeiras existem nobres e brâmanes, chefes de família e contemplativos que são sábios e que sabem diferenciar e que questionarão um bhikkhu: ‘Qual é a doutrina do seu mestre? O que ele ensina?Assim perguntados vocês devem responder, ‘Nosso mestre ensina a remoção do desejo e cobiça.’
“…desejo e cobiça pelo que?”
“…desejo e cobiça pela forma, sensação, percepção, fabricações e consciência.”
“…vendo qual perigo que o seu mestre ensina a remoção do desejo e cobiça pela forma … pelas sensações … pelas percepções … pelas formações volitivas … pela consciência?
“…Quando alguém não está livre da paixão, desejo, afeição, sede, cobiça e ambição pela forma … pelas sensações … pelas percepções … pelas formações volitivas … pela consciência, então por qualquer mudança e alteração nessa consciência, surge a tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero.”
“…E vendo qual beneficio o seu mestre ensina a remoção do desejo e cobiça pela forma … pelas sensações … pelas percepções … pelas formações volitivas … pela consciência?”
“…Quando alguém está livre da paixão, desejo, afeição, sede, cobiça e ambição pela forma … pelas sensações … pelas percepções … pelas formações volitivas … pela consciência, não surge nenhuma tristeza, lamentação, dor, angústia, ou desespero.” [SN XXII.2]

“Muito bem, Anuradha. Tanto antes, como agora, eu declaro somente o sofrimento e a cessação do sofrimento.” [SN XXII.86]

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Autobiografia em cinco capítulos

Por Kenneth Ring

1
Ando pela rua
há um buraco fundo na calçada
eu caio
estou perdido … sem esperança.
Não é culpa minha.
Levo uma eternidade para encontrar a saída.

2
Ando pela mesma rua
há um buraco fundo na calçada
mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim levo um tempão para sair.

3
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada
vejo que ele ali está
ainda assim caio … é um hábito.
Meus olhos se abrem
sei onde estou
é minha culpa.
Saio imediatamente.

4
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.

5
Ando por outra rua.

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A Casa dos Hóspedes

Por Rumi

O ser humano é uma casa de hóspedes.
Toda manhã uma nova chegada.

A alegria, a depressão, a falta de sentido, como visitantes inesperados.

Receba e entretenha a todos
Mesmo que seja uma multidão de dores
Que violentamente varrem sua casa e tiram seus móveis.
Ainda assim trate seus hóspedes honradamente.
Eles podem estar te limpando
para um novo prazer.

O pensamento escuro, a vergonha, a malícia,
encontre-os à porta rindo.

Agradeça a quem vem,
porque cada um foi enviado
como um guardião do além.

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A Vida não é apenas Sofrimento

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Por Ajaan Thanissaro

“Ele me mostrou a luminosidade do mundo.”

Assim foi como meu mestre, Ajaan Fuang, certa vez descreveu o seu débito para com o seu mestre, Ajaan Lee. As suas palavras me pegaram de surpresa. Eu havia começado a estudar com ele fazia pouco tempo, recém saído da escola onde havia aprendido que os Budistas sérios adotavam uma visão negativa, pessimista do mundo. No entanto, aqui se encontrava um homem que havia entregado a sua vida à prática dos ensinamentos do Buda, falando da luminosidade do mundo. É claro que por “luminosidade” ele não estava se referindo aos prazeres das artes, comida, viagens, esportes, vida em família ou qualquer uma das demais seções do jornal de Domingo. Ele se referia a uma felicidade mais profunda que vem de dentro. À medida que passei a conhecê-lo melhor, obtive a percepção de quão profundamente feliz ele era. Ele podia ser cético em relação a muitas das aparências humanas, mas eu nunca o descreveria como sendo negativo ou pessimista. “Realista” estaria mais próximo da verdade. No entanto, durante muito tempo eu não consegui me livrar do paradoxo que sentia de como o pessimismo dos textos Budistas podiam se materializar em uma pessoa tão feliz.

Somente quando comecei a ler os textos mais antigos foi que me dei conta de que aquilo que eu pensava ser um paradoxo era na verdade uma ironia – a ironia de como o Budismo, que proporciona uma visão tão positiva do potencial humano para encontrar a verdadeira felicidade, pôde ser rotulado no Ocidente como negativo e pessimista.

Você provavelmente ouviu o rumor de que “a vida é sofrimento” como sendo o primeiro princípio do Budismo, a primeira nobre verdade do Buda. É um rumor com boas credenciais, disseminado por acadêmicos de respeito e mestres do Dhamma, mas apesar disso é um rumor. A verdade sobre as nobres verdades é muito mais interessante. O Buda ensinou quatro verdades – não uma – a respeito da vida: existe o sofrimento, existe uma causa para o sofrimento, existe um fim para o sofrimento e existe um caminho de prática que dá um fim ao sofrimento. Essas verdades, tomadas em conjunto, estão muito longe de serem pessimistas. Elas são uma abordagem prática para solucionar um problema – a maneira como um médico encara uma enfermidade ou um mecânico, um motor defeituoso. Você identifica um problema e investiga as suas causas. Depois então você dá um fim ao problema eliminando as suas causas.

O que é especial na abordagem do Buda é que o problema que ele ataca é o sofrimento humano na sua totalidade, e a solução que ele oferece é algo que os seres humanos podem fazer por si mesmos. Da mesma forma como um médico que conhece a cura infalível para o sarampo não teme o sarampo, o Buda não teme nenhum aspecto do sofrimento humano. E, tendo experimentado a felicidade que é completamente não condicionada, ele não teme apontar o sofrimento e estresse inerentes em lugares que a maioria de nós não consegue ver – nos prazeres condicionados aos quais nos apegamos. Ele nos ensinou que não devemos negar esse sofrimento e estresse ou tentar fugir deles, mas, ficar tranqüilos e enfrentá-los. Examiná-los com cuidado. Dessa forma – entendo-os – podemos desenraizar as suas causas e dar um fim neles. Totalmente. Quão confiante você se sente?

Um razoável número de escritores vêm apontando a confiabilidade básica das quatro nobres verdades, mas, apesar disso, o rumor do pessimismo Budista persiste. Eu me pergunto porque. Uma explicação possível é que, ao ir de encontro ao Budismo, nós temos no subconsciente a esperança de que ele venha a trazer uma solução para temas que possuem uma longa história na nossa cultura. Ao iniciar com o sofrimento como a sua primeira verdade, o Buda parece estar oferecendo a sua opinião acerca de uma questão que possui uma longa história no Ocidente: o mundo é fundamentalmente bom ou mal?

De acordo com o Gênesis, a primeira questão que ocorreu a Deus após ele haver terminado a sua criação foi: ele havia feito um bom trabalho? Então ele olhou para o mundo e viu que ele era bom. Desde então, as pessoas no Ocidente têm ficado do lado ou contra Deus nessa sua resposta, mas agindo assim elas têm afirmado que, em primeiro lugar, a questão vale a pena ser perguntada. Quando o Theravada – a única forma do Budismo que enfrentou o Cristianismo quando a Europa colonizou a Ásia – estava buscando formas de enfrentar aquilo que era visto como a ameaça missionária, os Budistas que haviam sido educados pelos missionários assumiram que a pergunta era válida e utilizaram a primeira nobre verdade como uma refutação ao Deus Cristão: vejam como a vida é miserável, eles diziam, é difícil aceitar o veredicto Divino acerca da sua obra.

Essa estratégia de debate pode ter sido favorável naquela época e ainda é fácil encontrar apologistas Budistas que – ainda vivendo no passado colonial – continuam utilizando os mesmos argumentos. No entanto, a verdadeira questão é, primeiramente, se o Buda pretendeu que a primeira nobre verdade fosse uma resposta à pergunta de Deus e – mais importante – se estamos obtendo o máximo da primeira nobre verdade encarando-a sob essa perspectiva.

É difícil imaginar o que você poderia alcançar dizendo que a vida é sofrimento. Você gastaria o seu tempo argumentando com as pessoas que enxergam mais do que apenas sofrimento na vida. O próprio Buda diz o mesmo em um dos seus discursos. Um brâmane chamado Dighanakha o procura e anuncia que ele não concorda com nada. Essa seria uma perfeita ocasião para o Buda, se ele quisesse, interceder pela verdade de que a vida é sofrimento. Ao invés disso, ele ataca essa noção de tomar uma posição sobre se a vida merece aprovação ou não. Existem três respostas possíveis para essa questão: (1) nada merece aprovação, (2) tudo merece e (3) algumas coisas merecem e outras não. Se você tomar qualquer uma dessas três posições, você acabará discutindo com as pessoas que tomam qualquer uma das outras duas posições. E o que você ganha com isso?

O Buda, então, instrui Dighanakha a olhar para o seu corpo e sensações como ilustrações da primeira nobre verdade: eles são estressantes, inconstantes e não merecem que nos apeguemos a eles como sendo o eu. Dighanakha segue as instruções do Buda e ao soltar-se do seu apego ao corpo e às sensações, conquista o seu primeiro vislumbre do Imortal que significa estar totalmente livre do sofrimento.

A mensagem desta estória é que tentar responder à pergunta de Deus, fazendo um julgamento do mundo, é uma perda de tempo. E ela oferece uma melhor utilização para a primeira nobre verdade: olhando para as coisas não em termos de “mundo” ou “vida”, mas simplesmente apontando o sofrimento para que você possa compreendê-lo, soltar-se dele e obter a libertação. Ao invés de querer que façamos um julgamento que englobe tudo – o que, na prática, significa pedir que sejamos partidários cegos – a primeira nobre verdade nos pede para olhar e ver com precisão onde se encontra o problema do sofrimento.

Outros discursos enfatizam que o problema não está no corpo e nas sensações em si mesmos. Eles mesmos não são o sofrimento. O sofrimento está no apego a eles. Na definição da primeira nobre verdade o Buda resume todos os tipos de sofrimento na frase, “os cinco agregados influenciados pelo apego”: apego à forma física (incluindo o corpo), sensações, percepções, formações mentais e consciência. No entanto, ele nos diz que quando os cinco agregados estão livres de apego, eles conduzem ao benefício e felicidade por um longo período.

Portanto, em resumo, a primeira nobre verdade quer dizer que o apego é sofrimento. É devido ao apego que a dor física se torna uma dor mental. É devido ao apego que o envelhecimento, enfermidade e morte causam angústia mental. Como nos apegamos? Os textos indicam quatro formas: o apego ao desejo sensual, o apego a idéias, o apego a preceitos e rituais e o apego à ideia da existência de um eu. É raro que na mente comum exista algum momento sem alguma forma de apego. Mesmo quando abandonamos uma forma particular de apego é porque em geral ela está atrapalhando alguma outra forma. Podemos abandonar uma idéia puritana porque ela interfere com o prazer sensual; ou um prazer sensual porque ele conflita com uma idéia acerca do que devemos fazer para ter boa saúde. A nossa idéia sobre quem somos pode se expandir e contrair dependendo de qual das nossas muitas noções de “eu” está sentindo mais dor: ela pode se expandir para uma noção cósmica de unidade com todos os seres, quando nos sentimos confinados pelas limitações do nosso pequeno complexo de mente e corpo; ela pode contrair-se numa pequena concha quando sentimos a dor que surge da identificação com um cosmo repleto de crueldade, negligência e estupidez. E então chegamos ao ponto em que a insignificância do nosso eu finito se torna novamente opressiva.

Portanto, descobrimos que a nossa mente salta de apego em apego tal como uma semente de mostarda em uma frigideira quente. Quando nos damos conta disso, naturalmente procuramos uma forma de escapar. E é nesse ponto que se torna tão importante que a primeira nobre verdade não diga que “a vida é sofrimento”, pois, se a vida fosse sofrimento, onde poderíamos encontrar um fim para o sofrimento? Não nos restaria nada além de morte e aniquilação. Mas, quando na verdade o apego é o sofrimento, nós simplesmente temos que olhar para ver com clareza onde está o apego e aprender a não nos apegarmos.

É nesse ponto que nos deparamos com a grande habilidade do Buda como estrategista: Ele nos diz que tomemos os apegos que devemos abandonar e que os transformemos no caminho para o seu abandono. Necessitaremos de uma certa dose de prazer sensual – em termos de comida, roupas e moradia adequadas – para encontrarmos a força para superar o prazer sensual. Necessitaremos do Entendimento Correto para superar o apego a idéias, e das regras dos cinco preceitos éticos e da prática da meditação para superar o apego a preceitos e rituais. Sustentando tudo isso, precisaremos de uma forte noção de auto-responsabilidade para superar o apego à ideia da existência de um eu.

Assim, nós começamos a trilhar o caminho para dar fim ao sofrimento sem tentar derrubar nossos apegos imediatamente, mas aprendendo a nos apegar mais estrategicamente. Em outras palavras, começamos do ponto onde nos encontramos e utilizamos da melhor maneira possível os hábitos que já temos. Progredimos ao longo do caminho à medida que encontramos mais e mais coisas de melhor qualidade às quais possamos nos apegar e maneiras mais hábeis de nos apegarmos; da mesma maneira que você usa uma escada para subir no telhado: agarra um degrau mais alto para poder soltar o degrau mais baixo e depois agarra um outro degrau ainda mais alto. À medida que os degraus se distanciam do chão, você perceberá que a mente ficará cada vez mais clara e poderá ver com precisão onde estão os seus apegos. Ela obterá uma noção mais evidente sobre qual parte daquilo que é experimentado pertence a qual nobre verdade e o que deve ser feito em relação a ela: as partes que são sofrimento devem ser compreendidas; as partes que causam o sofrimento – desejo e ignorância – devem ser abandonadas; as partes que constituem o caminho para o fim do sofrimento devem ser desenvolvidas; e as partes que pertencem ao fim do sofrimento devem ser realizadas. Isso ajudará você a subir cada vez mais alto na escada, até chegar ao telhado com segurança. E nesse momento, você poderá finalmente se soltar da escada e libertar-se completamente.

Potanto, a verdadeira questão que enfrentamos não é a pergunta de Deus, julgando a sua habilidade em criar a vida no mundo. É a nossa questão: que tão habilidosos somos em lidar com as vicissitudes da vida? Estamos nos apegando de uma forma que apenas serve para dar continuidade ao ciclo de sofrimento ou estamos aprendendo a nos apegar de maneira a reduzir o sofrimento para que, no final das contas, possamos nos emancipar e não precisemos mais nos apegar . Se lidarmos com a vida armados com as quatro nobres verdades, compreendendo que a vida contém ambos, o sofrimento e o fim do sofrimento, haverá esperança: esperança de que seremos capazes de identificar quais partes da vida pertencem a qual verdade; esperança de que algum dia, nesta vida, descobriremos a luminosidade ao ponto de podermos concordar com o Buda, “Ah. Sim. Isto é o fim do sofrimento e estresse”.

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Perguntas Frequentes

R1: O que é Meditação Vipassana? É classificada como religião?

Meditação Vipassana, também conhecida como Meditação da Plena Atenção ou Meditação do Insight, visa ao desenvolvimento da capacidade da mente de se desidentificar com os estados mentais prejudiciais (tais como ansiedade, depressão, estresse) e estabelecê-la no momento presente, usando quatro fundamentos: o corpo, as sensações, a mente e os objetos da mente. O objetivo da Meditação Vipassana é aprender a conhecer e ver as coisas como na verdade são sem apegarmos a ideias, pensamentos, opiniões e expectativas. A Meditação da Plena Atenção é, portanto, um processo contínuo de abandonar as histórias contadas pela mente e observar a experiência em primeira mão, percebendo como ocorrem os próprios processos mentais e corporais. Esse exercício de abandonar expectativas, apego ao passado ou ânsias quanto ao futuro para focar a mente nas partes do corpo ou na respiração (por exemplo) permite tranquilizar da mente, gerando momentos de compreensão mais profundos da realidade, além dos nossos condicionamentos. Com o tempo, o praticante se torna capaz de observar os desejos e aflições mentais sem se identificar com eles, permitindo a adoção de novas escolhas. Vipassana nos ajuda a liberar a mente das escolhas prejudiciais e aflitivas.

Vipassana ou Plena Atenção não é religião, é uma técnica de Meditação desenvolvida pelo Buda no norte da Índia, há mais de 2.500 anos. Suas práticas são universais que independem de crenças e estão abertas a qualquer pessoa que queira praticar meditação.

R2: Há quanto tempo a Sociedade Vipassana chegou em Brasília?

Os primeiros cursos de meditação Vipassana promovidos em Brasília aconteceram para amigos próximos, em 2006, na casa do atual Presidente, Régis Guimarães. A resposta das pessoas aos cursos foi tão positiva que naturalmente foram surgindo mais e mais interessados.
Desses encontros surgiu uma rede de pessoas iniciadas na técnica, engajadas pela causa. Tocados pelos efeitos da meditação Vipassana em suas vidas, esses participantes formaram um grupo de voluntários motivados a aprimorar a prática e compartilhar o aprendizado. Assim surgiu a Sociedade Vipassana de Meditação (SVM).
Em 2008, a SVM realizou seu primeiro retiro e em 2009 começou a tomar o formato que tem hoje, com cursos, grupos de meditação coletiva (Sangha), yoga, palestras, retiros, Programa de Redução de Estresse-MBSR e cursos in company.

R3: Qual o diferencial em relação as outras formas de conhecimento interior?

O diferencial da Meditação Vipassana em relação às outras formas de conhecimento interior é a desnecessidade de crenças em divindades para praticá-la. Basta ter um corpo e uma mente humana e vontade sincera de conhecer a si mesmo em todos os aspectos, sejam agradáveis ou não agradáveis. Podemos olhar com profundidade nossa realidade sem adicionar sofrimento mental desnecessário. A dor é inevitável, o sofrimento é opcional. As dores são os acontecimentos inevitáveis da vida: morte, doença, velhice, separação das pessoas que se ama. O sofrimento é o modo como reagimos a tais acontecimentos. Tal reação pode conduzir à sabedoria e libertação, ou à adição de mais sofrimento. Duas pessoas podem passar pelo mesmo fato, mas uma pode desenvolver um quadro traumático, enquanto outra não. Vemos isso em pessoas nascidas na mesma família ou submetidas a tratamentos dolorosos contra câncer. O sofrimento depende mais da reatividade de cada um do que dos fatos. Vale lembrar que o sofrimento está na mente, não está no mundo: pois o mundo é neutro. 

R4: Quantas pessoas participam hoje?

A grande maioria das atividades da SVM é realizada graças à generosa colaboração de cerca de 60 voluntários.
De 2006 até hoje, mais de 6.000 pessoas já foram beneficiadas com cursos, retiros, reuniões de meditação em grupo (Sanghas), palestras e Programa de Redução de Estresse-MBSR.

R5: É necessário algum pré-requisito para praticar?

Não há nenhum pré-requisito. Basta ser um ser humano dotado dos cinco sentidos e de uma mente. Praticar Meditação Vipassana requer o esforço de voltar, repetidamente, toda a atenção ao corpo, às sensações, à mente e aos objetos mentais, abandonando distrações. Logo, se alguém é dotado de corpo, sensações, mente e objetos mentais, esta pessoa está apta à prática de Vipassana. Tudo ocorre no momento presente, e todos os quatro fundamentos da Plena Atenção estão disponíveis no aqui e agora. Em vez de buscar felicidade fora de si, basta reduzir um pouco o ritmo da correria diária e observar sua respiração com intimidade e consciência.

R6: É cobrada alguma contribuição do visitante/praticante?

A SVM oferece diversas atividades cujas contribuições são simbólicas e voluntárias, à exceção do Programa de Redução de Estresse, retiros, Yoga e Tai Chi onde os profissionais são remunerados.

R7: É notada alguma forma de discriminação?

Vipassana significa olhar com profundidade e isso requer olhar a nós mesmos com profunda sinceridade. Quando nos vemos dessa forma, aprendemos que não somos tão perfeitos quanto julgávamos ser, mas, também, não somos tão ruins. A mente tende a caminhar por extremos conforme as situações se apresentam. Pela Meditação aprendemos a retirar o foco dos objetos físicos ou mentais que provocam nossa alegria ou tristeza para passar a observar o que é estar alegre ou o que significa sentir tristeza em nosso próprio corpo, aceitando o surgimento e desaparecimento desses estados mentais, sem resistência. Observamos e deixamos passar: essa e a regra (letting go). Quando criticamos ou julgamos, não estamos plenamente atentos, pois estamos discriminando pessoas e coisas conforme valores apropriados por um processo de identificação egoica ao longo da nossa existência. No entanto, com insight e compreensão correta pela prática da Meditação Vipassana, nos damos conta de que todos os nossos valores e opiniões que tanto nos agarramos são condicionados e, portanto, sujeitos à mudança. Alteradas as causas, alteram-se os efeitos. Se tivéssemos nascido em outro tempo e lugar, pensaríamos de forma diferente. Isso é simples, mas de difícil apreensão emocional. Discriminação é uma visão superficial e simplória das coisas, uma tentativa de racionalizar a raiva e o sofrimento dentro do ser humano ao direcioná-los a objetos externos, e isso não faz sentido em Vipassana. O maior discriminador de nós mesmos é nossa própria mente.

R8: Pode ser praticado com alguma religião?

Sim. Vipassana ou Plena Atenção é uma técnica de Meditação. Vipassana não requer adoção nem abandono de nenhuma religião.

R9: Quais os benefícios físicos? 10- Quais os benefícios mentais?

Redução do Estresse – Meditar é mais repousante do que dormir. Uma pessoa em estado de meditação consome seis vezes menos oxigênio do que quando está dormindo. Mas os efeitos para o cérebro vão mais longe: pessoas que meditam todos os dias há mais de dez anos têm uma diminuição na produção de adrenalina e cortisol, hormônios associados a distúrbios como ansiedade, déficit de atenção e hiperatividade e estresse e experimentam um aumento na produção de endorfinas, ligadas à sensação de felicidade.

Insônia e Distúrbios Mentais – Técnicas de relaxamento profundo, colocadas em prática durante o dia, podem melhorar a qualidade do sono.

Alívio da Dor – A intensidade da dor incomoda menos os praticantes de meditação.

Reforço do Sistema Imunológico – O sistema imunológico também é favorecido. “O aumento da atividade cerebral relacionada a pensamentos positivos tem influência direta na maior produção de anticorpos. A meditação também intensifica a ação da enzima telomerase”, diz Judson A. Brewer, de Yale.

Melhoria na Concentração – As áreas do cérebro responsáveis pela memória e pela atenção chegam a ficar mais densas quando se medita. Foi a conclusão a que chegaram pesquisadores de Harvard, Yale e MIT, municiados por scanners de cérebro. 

Benefícios Psicológicos – A meditação traz benefícios psicológicos e fisiológicos. É usada por muitos terapeutas, combinada ao tratamento convencional, para baixar níveis de estresse e ansiedade.

R11: Qual a mensagem central dessa prática?

A mensagem central dessa prática é que não precisamos ser escravos dos condicionamentos que moldaram nossas vidas e que a felicidade é uma questão de escolha acompanhada de esforço, persistência e determinação. O cérebro adulto muda pela prática da Meditação da Plena Atenção e diversas pesquisas científicas comprovam sua eficácia. A comprovação do método pode ser verificada por nós mesmos, desde que o praticante reserve alguns minutos ou horas por dia. Paciência é um dos pontos chaves do processo, pois devemos aprender a viver sem ansiedade e pacificamente com as imperfeições do mundo, das pessoas ao nosso redor e, principalmente, com a nossa própria imperfeição.

R12: Em seu meio social seus parentes e amigos também praticam?

No meio social, poucos amigos e parentes praticam. Não há proselitismo em Meditação Vipassana. Meditar é uma escolha de cada pessoa. O papel da SVM é abrir espaço para a prática e transmitir conhecimento sobre o método. Leituras e palestras são importantes, pois esclarecem dúvidas e incentivam, no entanto, nada substitui a prática diária. Conhecer meditação intelectualmente não é o mesmo que sentir profunda paz e tranquilidade haurida da meditação, quando a mente treinada repousa no momento presente. Quando abrimos mão da raiva, da ganância e da ignorância, nos sentimos contentes e satisfeitos no momento presente, e o simples “estar aqui” torna-se um momento de felicidade. Aprendemos a ser feliz no AGORA, pois o futuro é incerto e o amanhã já passou.

R13: Como podemos conhecer mais o grupo?

Nosso endereço:
Sociedade Vipassana de Meditação – SGAN Quadra 909 “E”, Asa Norte, Brasília – DF (Próximo ao UNICEUB e ao lado da Vara da Infância e Juventude) – Fone: 61 8481-2187

Aos sábados reunimos várias dezenas de pessoas para meditarem em grupo em nossa sede. O encontro que acontece aos sábados, a partir das 16 horas, consiste em:

30 minutos de prática de hatha yoga conduzida por professores.
45 minutos de meditação conduzida por instrutor da SVM.
30 minutos de esclarecimento de dúvidas relativas à prática.

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Meditações Guiadas

MBSR

Curso 1 de Meditação Vipassana

Curso 2 de Meditação Vipassana

Ana Cláudia

Angela Lins

Meditação 1
Meditação 2 – Setembro/2014

Glícia

Meditação 1

Luiza Frade

Meditação 1 – Outubro/2014
Meditação 2 – Meditação da Montanha
Meditação 3 – Sons e Respiração
Meditação 4 – Novembro/2014
Meditação 5 – Torpor

Marcus Marques

Meditação 1 – Janeiro/2015

Mônica

Meditação 1 – Novembro/2014

Neiva

Meditação 1
Bondade Amorosa
Choiceless
Montanha

Regis Guimarães

Meditação 1 – Outubro/2014
Meditação 2 – Bondade Amorosa

João Nery

Meditação 1 – Novembro/2014

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Meditação da Montanha

 Por Jon Kabat-Zinn

Quando se trata de meditação as montanhas têm muito a ensinar, tendo um significado arquetípico em todas as culturas. As montanhas são lugares sagrados. As pessoas sempre buscam orientação espiritual e renovação nelas. A montanha é o símbolo do primeiro eixo do mundo (monte Meru), a morada dos deuses (monte Olimpo), o lugar onde o líder espiritual encontra Deus e recebe dele (ou dela) mandamentos e procedimentos (monte Sinai). As montanhas são consideradas sagradas, personificando medo e harmonia, aspereza e majestade. Estando acima de tudo em nosso planeta, elas nos acenam e nos inundam com sua diáfana presença. Sua natureza é elementar: rocha. Rocha dura, rocha sólida. As montanhas são lugares de visões, onde se pode tocar a escala panorâmica do mundo natural e sua interseção com as frágeis e, contudo, tenazes raízes da vida. As montanhas desempenharam papeis-chave na nossa história e pré-história. Para os povos tradicionais, as montanhas foram e ainda são, mãe, pai, guardiã, protetora e aliada.

Na prática da meditação, às vezes pode ser útil “pedir emprestadas” as maravilhosas qualidades arquetípicas das montanhas e usá-las para incentivar nosso propósito e decisão de reter o momento com pureza e simplicidade básicas. A imagem da montanha fixada na retina da mente e no corpo pode refrescar nossa memória sobre por que estamos sentados, em primeiro lugar, e sobre o que isso verdadeiramente significa, cada vez que tomamos nosso assento para nos demorarmos no reino do não fazer. As montanhas são a quintessência emblemática da presença continuada e da tranquilidade.

A meditação da montanha pode ser praticada da maneira apresentada a seguir, ou modificada para refletir sua visão pessoal e o significado que ela tem para você. Pode ser feita em qualquer postura, mas acho que ela é mais poderosa quando estou sentado no chão de pernas cruzadas, de maneira que meu corpo pareça e se sinta mais próximo a uma montanha, por dentro e por fora. Estar nas montanhas ou ter a vista de uma montanha ajuda, mas não é necessário. Aqui é a imagem interior que é fonte de poder.

Pinte a mais bela montanha que você conhece ou de que ouviu falar ou pode imaginar, uma cuja forma lhe diga algo. Ao focalizar a imagem ou o sentimento da montanha na retina de sua mente, observe sua forma total, seu pico imponente, a base enraizada na rocha da crosta terrestre, as encostas, íngremes ou delicadamente inclinadas. Observe também como ela é sólida, como é imóvel, como é bela, quer vista à distância ou de perto – uma beleza que emana de sua singular marca de contorno e forma, e, ao mesmo tempo, incorporando qualidades universais de “ser montanha”, transcendendo contornos ou formas particulares.

Talvez sua montanha tenha neve no cume e árvores nas encostas mais baixas. Talvez tenha um pico proeminente, talvez uma série de picos ou um altiplano. Não importa sua forma, apenas sente e respire com a imagem dessa montanha, observando-a, registrando suas qualidades. Quando se sentir pronto, verifique se pode trazer a montanha para o seu próprio corpo, de modo que seu corpo e a montanha na retina de sua mente se tornem unos. Sua cabeça passa a ser o imponente cume; seus ombros e braços, as encostas da montanha; suas nádegas e pernas, a base sólida enraizada na sua almofada, no chão ou na cadeira. Experimente no seu corpo a sensação de elevação, a axial e elevada qualidade da montanha entranhada em sua própria espinha. Convide a si mesmo a tornar-se uma montanha que respira, despreocupadamente, na sua quietude, completamente naquilo que você é – além das palavras e pensamentos, uma presença centrada, enraizada, imóvel.

Agora, como você bem sabe, durante o dia, enquanto o sol caminha no céu, a montanha fica sentada. Luz, sombra e cores mudam virtualmente, a cada momento, na imutável quietude da montanha. Mesmo o olho destreinado percebe mudanças a cada hora. Isso evoca as obras-primas de Claude Monet, que tinha o hábito de armar muitos cavaletes e pintar a vida de seus objetos inanimados, hora a hora, trocando de tela, à medida que o jogo de luz, sombra e cor se transformava em catedral, rio ou montanha, consequentemente despertando a atenção do espectador. À medida que a luz muda, que a noite sucede o dia e o dia a noite, a montanha senta-se, simplesmente sendo ela mesma. Ela permanece quieta enquanto as estações fluem e o clima muda, momento a momento, dia a dia. A calma permitindo todas as mudanças.

No verão, não há neve na montanha, exceto talvez no próprio cume ou em penhascos protegidos da luz direta do sol. No outono, a montanha pode exibir um manto com cores de brilho flamejante; no inverno, um cobertor de neve e gelo. Em qualquer estação, às vezes, ela pode se ver envolvida em nuvens ou neblina ou batida pela chuva congelante. Os turistas que vêm visitá-la podem ficar decepcionados se não conseguem vê-la claramente, mas, para a montanha, dá no mesmo – vista ou não vista, com o sol ou com nuvens, ensolarada ou fria, ela fica apenas sentada, sendo ela mesma. Às vezes visitada por tempestades violentas, atingida por neve, chuva e ventos de magnitude impensável – no meio de tudo isso, ela fica sentada. A primavera chega, os pássaros cantam nas árvores mais uma vez, as folhas voltam para as árvores que as tinham perdido, as flores brotam nos prados altos e nas escarpas, correntezas transbordam com a água da neve derretida. No meio de tudo, a montanha permanece sentada, indiferente ao tempo, ao que acontece na superfície e ao mundo das aparências.

Quando sentamos com essa imagem na mente, podemos incorporar a mesma quietude inabalável e de enraizamento diante de tudo que muda em nossas próprias vidas, em segundos, horas e anos. Em nossas vidas e na nossa prática de meditação, experimentamos constantemente a natureza mutante da mente, do corpo e do mundo exterior. Experimentamos períodos de luz e de trevas, cores vivas e monotonia insípida. Experimentamos tempestades de variadas intensidades e violência, no mundo exterior e em nossas próprias vidas e mentes. Golpeados pelos fortes ventos, pelo frio e pela chuva, suportamos períodos de trevas e dor, bem como saboreamos momentos de alegria e elevação. Até a nossa aparência muda constantemente, assim como a da montanha, experimentando o tempo e o passar do tempo.

Ao nos tornarmos montanha na nossa meditação, podemos nos ligar à sua força e estabilidade e adotá-las para nosso próprio uso. Podemos usar suas energias a fim de fortalecer nossos esforços para enfrentar cada momento com concentração, estabilidade e clareza. Ela pode nos ajudar a ver nossos pensamentos e sentimentos, nossas preocupações, nossas tempestades e crises emocionais; até mesmo as coisas que acontecem a “nós” são muito semelhantes ao clima da montanha. Tendemos a tomar isso como algo pessoal, mas sua característica mais forte é impessoal. O clima de nossas próprias vidas não deve ser ignorado ou negado. Deve ser encontrado, respeitado, sentido, conhecido pelo que ele é, e mantido em plena vigília, já que pode nos matar.

Dessa forma, chegaremos a conhecer um silêncio e calma e sabedoria mais profundos do que imaginávamos, exatamente dentro das tempestades. As montanhas têm isso para nos ensinar, e mais ainda, se soubermos escutá-las.

Contudo, quando tudo foi dito e feito, a meditação da montanha é somente um instrumento, um dedo nos apontando em direção a algum lugar. Ainda temos de olhar, para então ir. Apesar de a imagem da montanha poder nos ajudar a nos tornarmos mais estáveis, nós seres humanos somos bem mais interessantes e complexos do que as montanhas. Somos montanhas que respiram, que se movimentam, que dançam. Podemos ser simultaneamente duros como a rocha, firmes, inamovíveis, e ao mesmo tempo suaves, delicados e fluidos. Temos um vasto potencial à nossa disposição. Podemos ver e sentir. Podemos saber e compreender. Podemos aprender; podemos crescer; podemos curar; especialmente se aprendermos a estar atentos à harmonia interna das coisas e manter o eixo central da montanha a cada dificuldade e obstáculo.

Os pássaros desaparecem no céu,
E agora a última nuvem escoa.
Sentamos juntos, a montanha e eu,
Até que apenas a montanha permaneça.

A Mente Alerta – como viver intensamente cada momento de sua vida através da meditação, Autor: KABAT-ZINN, JON

Tente:

– Mantenha a imagem da montanha na mente enquanto você se sentar para a meditação formal.

– Explore sua utilidade ao aprofundar sua capacidade para permanecer em quietude;

– Sente-se por períodos mais longos de tempo;

– Sente-se diante de adversidades, dificuldades, tempestades ou insipidez da mente.

– Pergunte-se o que você está aprendendo de suas experiências com essa prática.

– Você pode ver algumas sutis transformações que estejam ocorrendo na sua atitude em relação a coisas que mudam na sua vida?

– Pode carregar consigo a imagem da montanha na vida diária?

– Pode ver a montanha nos outros e lhes permitir que tenham sua própria forma e contorno, cada montanha sendo única em si mesma?

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Bibliografia

Sugestões de livros sobre Meditação 

  • A Alegria de Viver – Yongey Mingyur Rinpoche
  • A Arte de Meditar – Matthieu Ricard
  • A Arte do Perdão, da Ternura e da Paz – Jack Kornfield
  • Being Dharma – Ajahn Chah
  • Breath by Breath – Larry Rosenberg
  • Buscando a Essência da Sabedoria – Joseph Goldstein & Jack Kornfield
  • Caminhos para a Paz Interior – Thich Nhat Hanh
  • Ciência Contemplativa – B. Alan Wallace
  • A Cientista que Curou Seu Próprio Cérebro – Jill Bolte Taylor
  • Coming To Our Senses: Healing Ourselves and the World Trough Mindfulness – Jon Kabat-Zinn
  • Dancing With Life – Phillip Moffitt
  • Depois do Êxtase, Lave a Roupa Suja – Jack Kornfield
  • Dharma – Joseph Goldstein
  • A Experiência do Insight – Joseph Goldstein
  • A Meditação da Plena Atenção – Bhante Henepola Gunaratana
  • A Meditação e Visão Interior – Joseph Goldstein
  • A Mente Alerta – Jon Kabat-Zinn
  • Eight Mindful Steps to Happiness – Bhante Henepola Gunaratana
  • Em Busca de uma Psicologia do Despertar – John Welwood
  • Ensinamentos do Buda – Jack Kornfield
  • E o Cérebro Criou o Homem – Antônio R. Damásio
  • Eu Busco Refúgio na Sangha – Thich Nhat Hanh
  • Felicidade – Matthieu Ricard
  • Foco – Daniel Goleman, ph.D.
  • Full Catastrophe Living – Jon Kabat-Zinn
  • Inteligência Emocional, a Teoria Revolucionária – Daniel Goleman, ph.D.
  • Letting Everything Become Your Teacher – Jon Kabat-Zinn
  • Mindfulness in Plain English – Bhante Henepola Gunaratana
  • Mindfulness With Breathing – Buddhadãsa, Silkworm Books
  • Psicologia do Amor – Jack Kornfield
  • Radical Acceptance – Tara Brach
  • Respire! Você Está Vivo – Thich Nhat Hanh
  • Satipattana The Direct Path To Realization – Anãlayo
  • Search Inside Yourself – Chade-Meng Tan
  • The Dalai Lama at MIT – Harrington and Zajonc
  • The Emotional Life of Your Brain – Richard J. Davidson, ph.D. with Sharon Begley
  • The Mindulf Brain – Siegel
  • The Mindful Way Through Depression – Jon Kabat-Zinn e outros
  • Transformação e Cura – Thich Nhat Hanh
  • Transformações na Consciência – Thich Nhat Hanh
  • Treine a Mente, Mude o Cérebro – Sharon Begley
  • Um Caminho Com O Coração – Jack Kornfield
  • Vivendo Plenamente as Crises – Jon Kabat-Zinn
  • Wherever You Go There You Are – Jon Kabat-Zinn 

Sociedades de Meditação

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